Guarapuava

Histórias que o povo conta: A Lutcher S/A – Parte 1

A presença dos Lutcher no Brasil começa bem antes da instalação da indústria na cidade de Foz do Jordão; mais especificamente em 1943, Henri Lutcher Brown tinha planos de instalar uma indústria no Brasil

Foto: Arquivo pessoal/Dirceu Dalmaz

23/05/2022 – 07:46:19

Luiz Felipe

O começo de tudo

Ser historiador é uma mistura de alegria, diversão e emoção ao ler o que as fontes nos contam e ouvir relatos de quem viveu a história e é uma fonte viva. As histórias contadas por relatos orais são preciosos registros dos fatos que o historiador está pesquisando, mesmo com os percalços do tempo como a confusão com a memória, por exemplo, até mesmo as diferentes versões que vão surgir dependendo da posição de quem está contando a história.

A história que eu quero contar a vocês nesta série de três etapas muitos conhecem até bem melhor do que eu, pois a vivenciaram ou conheceram pessoas que viveram aquele momento. Estou falando da Lutcher S/A. Mas confesso que essas histórias despertaram a curiosidade em mim após um post nas redes sociais que vi em uma página chamada “Guarapuava Histórica”, que mais tarde descobri que estava replicando uma matéria do blog do amigo Dirceu Dalmaz, o Pato, uma lenda do esporte guarapuavano. Como bom historiador, me senti atraído pela história e fui “fuçar” os arquivos como dizemos e fiquei um tanto quanto chocado com a escassez de documentos e com os mistérios que envolvem a passagem da empresa pela região entre o fim da década de 1950 e a primeira metade da década 1960.

Toda essa história se desenrola na Vila do Segredo, local que deu origem ao município de Foz do Jordão, que em 1995 emancipou-se da cidade Candói, sendo este último elevado à categoria de município em 1990 ao ser desmembrado de Guarapuava. Segundo alguns historiadores, a região e o povoado de Segredo têm seus primeiros registros por volta do século XVII, quando padres jesuítas passavam pelo local lá por 1630. Várias eram as lendas de tesouro na região, de ouro a quartzo (principalmente ametista, muito comum na região). Desde muito antes da empresa ali se instalar, a colonização ergueu uma pequena vila, com o intuito de se proteger dos índios e dos demais desbravadores europeus que avançavam do lado espanhol da América para o lado português. Originalmente, após o Tratado de Tordesilhas, as terras invadidas agora pertenciam à Coroa Espanhola, ainda que houvesse forte presença portuguesa na área.

Por muitos anos sustentou-se a história de um possível domínio do exército sobre a região, transformando o local em uma espécie de Área 51 do Paraná. A verdade é que os militares nunca ocuparam a região, mas tiveram responsabilidade no fechamento da empresa após o golpe de Estado de 1964.

A Lutcher  

A presença dos Lutcher no Brasil começa bem antes da instalação da indústria na cidade de Foz do Jordão; mais especificamente em 1943, Henri Lutcher Brown tinha planos de instalar uma indústria no Brasil. À época, a Segunda Guerra Mundial exigiu muito das indústrias de um modo geral, principalmente na América, que estava mais afastada do conflito. No Brasil, o governo Vargas já dava início a uma ação que iria finalizar na década de 1950, com o incentivo à industrialização do Brasil; importante lembrar que é somente a partir do fim da década de 1970 que há uma explosão das cidades no país, até então ainda era um grande domínio rural e com poucos centros urbanos desenvolvidos, tudo girava entorno do eixo Rio-São Paulo, principalmente pelo fato de que o Rio de Janeiro ainda era a capital da República.

E então, em 1957, Frederic Lutcher Brown, filho de Henri, montou no Uruguai a maior fábrica de papel e celulose da região, a Cia Industrial Der Sur S/A; depois viajou ao Brasil à procura de uma região propícia para instalar a fábrica que seu pai tanto queria e foi no encontro das águas dos rios Jordão e Iguaçu que Lutcher resolveu instalar a tão sonhada fábrica da família no Brasil. A instalação contou com um pesado investimento por meio de um empréstimo do Banco Interamericano do Desenvolvimento à família Lutcher no valor de US$ 8.7 milhões de dólares, valores que atualizados para os tempos de hoje ultrapassariam os R$ 20 milhões.

Um decreto do Presidente Juscelino Kubitschek, datado de 13 de novembro de 1959, que “outorga à Lutcher S.A – Celulose e Papel concessão para o aproveitamento progressivo de energia hidráulica para uso exclusivo, de desníveis existentes em um trecho do rio Jordão, no distrito de Condoi, município de Guarapuava, Estado do Paraná”. (a grafia foi mudada tempos depois para Candói, que vem das línguas indígenas do grupo formado na região pelos Votorões, Dorins e os Camés – Kandoy, a clareira na mata).

Para você conhece que a região centro-sul do Paraná, basta pegar a PR-662 e à margem direita do rio Jordão, na divisa dos atuais municípios de Foz do Jordão e Reserva de Iguaçu, junto ao ponto em que o rio Jordão encontra as águas do Poderoso Iguaçu e você verá a sede da imponente Lutcher Papel e Celulose S/A.

Ainda na década de 1960, o grupo Lutcher S/A acionou a Justiça dos Estados Unidos contra o IDB – sigla para Banco Interamericano de Desenvolvimento em português. A alegação é que no período entre 1961 e 1964, além do empréstimo de US$ 8,7 milhões de dólares para a Lutcher, o IDB também emprestou US$ 5 milhões de dólares para outra empresa de papel e celulose, o Grupo Klabin, dos irmãos lituanos que fundaram a empresa em São Paulo ainda no século XIX, por volta de 1890. A Lutcher alegou que o banco não cumpriu com o contrato quando emprestou dinheiro a uma concorrente direta da empresa no país, ainda mais sendo brasileira. Nos dois anos em atividade, a Lutcher exportou papel e celulose para a Argentina, Uruguai e Inglaterra, onde a família Brown tinha muitos contatos comerciais; mas pouco tempo depois a Lutcher fecharia suas portas apenas dois anos após inaugurar, em 1965, alegando falência e trazendo uma decadência econômica para a região do Segredo.

Atualmente, a Lutcher não existe mais, entretanto, a sede da empresa na Foz do rio Jordão é controlada pela Rio Jordão Papeis S/A, uma espécie de subsidiária que opera com o mesmo CNPJ da Trombini Embalagens S/A, do Grupo Trombini, que possui sede em Curitiba e foi fundado na década de 1940 por Mirtillo Trombini.

Desde que chegaram ao Brasil, os ianques como foram chamados pelos moradores locais, sempre estiveram cercados de mistérios e sigilos por toda a parte. Hoje não é muito diferente, pouco se sabe sobre a realidade das histórias contadas sobre a Lutcher ou o que realmente ainda existe dentro da sede abandonada da empresa na margem direita do rio Jordão. Os arredores da empresa são muito bem protegidos e o acesso é restrito, como sempre foi desde a década de 1960. Na semana que vem você vai acompanhar um pouco dos mistérios que envolvem essa empresa, os misteriosos aviões não identificados sobrevoando a região, os causos populares, a extração de água-pesada, a presença do exército e as lendas sobre a versão paranaense de El Dorado que existe na região. Até breve!



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