Guarapuava

Juca Tigre, Degolado, o baile das feias e as histórias que o povo conta

Guarapuava é recheada de histórias e lendas que foram sobrevivendo ao tempo, mas muitos guarapuavanos não conhecem essas histórias ou nem mesmo a origem delas. Os conflitos da República também estiveram nas terras do Lobo Guará

Tropa de Maragatos, com Gumercindo Saraiva ao centro. Fonte: Arquivo Nacional

27/09/2022 – 11:37:27

Luiz Felipe

Em 1889 o Brasil trocava a sua forma de governança e Estado, saía o imperador e em seu lugar tomava o poder um militar com o presidencialismo; os brasileiros dormiram com a monarquia e acordaram com a República. A boa e velha fofoca nos conta que o golpe de 15 de novembro de 1889, inicialmente, era para ocorrer em 20 de novembro, mas acabou sendo antecipado devido aos boatos que rondavam a capital do Império, o Rio de Janeiro.

Conta a lenda, ou melhor, a fofoca reproduzida pelo Major Frederico Sólon de Sampaio Ribeiro, que o governo imperial havia emitido uma ordem de prisão contra Benjamin Constant. Frederico acabou contando ao ajudante de ordem, uma espécie de secretário militar, que repassou a história a Benjamin Constant, que comentou com outro amigo até que chegou aos ouvidos de Deodoro que ele e Constant seriam presos naquele fim de semana.

Verdade ou não, os militares se organizaram e insistiam que Deodoro da Fonseca fosse o líder militar daquele motim. Quando contaram a Deodoro que ele estava (supostamente) para ser preso pelo governo imperial, contam os boatos que Deodoro saiu de casa ao amanhecer daquela sexta-feira, 15 de novembro e cruzou o Campo do Santana e foi encontrar os batalhões que já estavam à sua espera no local onde hoje se encontra o Palácio Duque de Caxias. Dizem as más línguas que ali mesmo um cavalo lhe foi dado e que naquele local ele bradou “Viva a República”.

Naquele momento, o Império já contava com um grande desgaste e com grandes porções de insatisfação popular, a começar pela abolição da escravidão um ano antes e também por uma crise econômica que abalava o país. Dom Pedro II, que estava em Petrópolis naquele dia 15, voltou ao Rio imediatamente e foi pego no fogo cruzado, achando que a rebelião se tratava de trocar apenas o chefe do gabinete imperial, o Visconde de Ouro Preto. No dia 16, a fim de evitar a comoção popular, a família imperial foi exilada do Brasil.

Naquela mesma tarde, na Câmara do Rio, a República foi proclamada e somente no dia seguinte o povo foi informado sobre a mudança, conforme mostra a capa do Diário Popular, jornal de grande circulação à época.

Capa do Diário Popular, de 16 de novembro de 1889, anunciando a Proclamação da República. Fonte: Arquivo Nacional

Não muito tempo depois de todo o alvoroço causado pela República, uma guerra civil tomava conta do sul do país. O Rio Grande do Sul já havia enfrentado duas grandes guerras, a Farroupilha (1835-1845) e a Guerra do Paraguai (1864-1870), confrontos que devastaram a população do estado.

Agora um novo conflito tomava conta do estado. No centro da Revolução Federalista (1893-1895) agora estavam as disputas políticas entre os federalistas e republicanos. De um lado, os federalistas (maragatos) estavam totalmente insatisfeitos com o presidente (atual título de governador) do Rio Grande do Sul, o republicano Júlio de Castilhos. Os maragatos exigiam uma revisão da constituição adotada após a proclamação da República e também pediam por um poder descentralizado, além de um sistema parlamentarista, o que colocaria fim à prática de leis elaboradas pelo Poder Executivo.

Júlio de Castilhos tinha como um dos principais opositores Gaspar da Silveira Martins, que converteu-se em líder dos maragatos. A alcunha de maragato vem da corrente política defendida por Gaspar, que tem origem no exterior e estava ligada com povos nômades, que inclusive trouxeram o costume da bombacha ao sul do país. Na época da revolução, os republicanos passaram a usar o termo “maragato” como termo pejorativo, mas o tiro saiu pela culatra, pois os próprios federalistas passaram a se denominar maragatos e o nome acabou ganhando simpatia.  Os republicanos, por outro lado, eram chamados de pica-paus em razão da cor do uniforme que utilizavam e que também lembrava a cor dos pássaros na região.

Tropa de Maragatos, com Gumercindo Saraiva ao centro. Fonte: Arquivo Nacional

Mas longe, muito longe de toda a encrenca e do banho de sangue que rolava nos pampas gaúchos, a pérola do oeste paranaense com uma grande área de extensão territorial se tornaria palco de lendárias histórias sobre a cidade. Conta a lenda que lá pelos idos de 1894, quando a Revolução já estava se encaminhando para o fim, a passagem das tropas pela região de Guarapuava causou muitos danos e também acabou por dividir a população entre maragatos e pica-paus; o comércio foi saqueado, animais de montaria foram roubados, além dos assassinatos do Dr. Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, que era fazendeiro e juiz de Direito, além do padre Pedro Alves da Costa Machado.

Em retirada, a tropa de Juca Tigre – personagem famoso do conflito – unida a tropa do Coronel Sanchez, ambas compostas por quase 600 homens, passaram por Guarapuava para se abastecer. As histórias que o povo conta dizem que na retirada, os revoltosos exigiram um baile de despedida, pois a cidade tinha a fama de possuir mulheres muito bonitas. Para dançar, o local escolhido foi a casa do Coronel Pedro Siqueira, em frente à Catedral Nossa Senhoria de Belém. Atualmente, no local está o prédio-sede da Rádio Cultura FM na foto abaixo é possível ver o antigo casarão do alto, no canto inferior direito da foto.

Vista área de Guarapuava – Praça 09 de dezembro/Rua XV de Novembro. Fonte: IBGE/Acervo Cidades e Vilas

Diz a língua do povo que para chegar ao casarão do Coronel Siqueira, os convidados tinham de passar por uma coluna, espécie de corredor polonês (ref. II Guerra Mundial) que foi formada na rua XV de Novembro, possivelmente em sentindo contrário ao atual da rua, isto é, subiram a rua da quadra do atual banco Bradesco (onde a prefeitura/câmara e cadeia ficavam) e foram em direção ao casarão, que ficava na frente da praça 09 de dezembro.

Como nenhuma mulher queria comparecer ao tal baile, a cidade passou a ser ameaçada caso nenhuma mulher comparecesse para dançar com os revoltosos. A partir daí a lenda conta que as mulheres mais corajosas e que se achassem feias se apresentariam, enquanto as bonitas e medrosas iriam se esconder. Sob a promessa de Juca Tigre de que a ordem seria mantida, algumas mulheres compareceram ao baile; muitas delas eram casadas e compareceram com os maridos que permitiram a dança, pois as solteiras – consideradas bonitas – e medrosas, ficaram trancafiadas nos porões das casas e ninguém botou o pé para fora até que as tropas deixaram a cidade.

A Capela do Degolado

Estima-se que a Revolução Federalista tenha deixado um saldo de 10 a 12 mil mortos no RS, SC e PR. Em determinado momento, as tropas federalistas e republicanas passaram a adotar a prática da “degola”, isto é, a decepar cabeças dos prisioneiros militares e até de civis que estivessem em seu caminho. A degola tornou-se quase uma espécie de competição e revanchismo para ver quem degolava mais.

Soldado maragato sendo executado pelo cabo Sebastião Juvêncio ao estilo degola na cidade de Ponta Grossa – Paraná. Acredita-se que a imagem é de 1894. Fonte: Arquivo Nacional

Já em Guarapuava, um dos pontos mais conhecidos da cidade é também o ponto desconhecido de uma lenda da cidade para muitos guarapuavanos. Conta a história que o local onde está a “capelinha” ou igrejinha do Degolado – na Rua General Rondon, no bairro Dos Estados, é o local de sepultamento de um soldado federalista que havia sido feito prisioneiro.

Construída nos anos finais do século XIX, a capela originalmente era de madeira e somente um século depois a construção passou a ser de alvenaria. A crença popular acredita que ali naquele local está enterrado o soldado das tropas de Juca Tigre que teria tentado desertar, mas foi encontrado por algumas pessoas enquanto se escondia próximo do atual centro da cidade. Diz a lenda que o soldado foi obrigado a cavar sua própria cova e depois foi morto por Juca Tigre e ali foi sepultado.

Até hoje o local é uma espécie de santuário e muitos milagres são atribuídos ao degolado. No local é possível encontrar muitas imagens de santos, algumas sem cabeças inclusive, além de velas, fitas de Nossa Senhora Aparecida, Senhor do Bonfim, entre outros. No passado, o local recebia inúmeras visitas de fiéis, assim como o olho d’água de São João Maria, às margens do Jordão, mas atualmente o local é mais um espaço de passagem e as imagens ainda existentes são antigas. Há também muitas fotos de pessoas que foram deixadas lá familiares e fiéis em busca de alguma graça ou milagre. A região ao entorno é uma espécie de “praça”, com bancos para que as pessoas possam se reunir tranquilamente, mas devido ao abandono da estrutura pelas administrações do município, o mato tem tomado conta da área, assim como a grande escadaria que liga a rua General Rondon à Av. Moacir Júlio Silvestri também estão abandonadas. O local também é utilizado frequentemente por usuários de drogas.

A cidade de Guarapuava, embora muitos não imaginem, está no centro de grandes histórias do país. Embora seja uma cidade “nova” quando comparada a outras, parte da nossa história nacional está vinculada a esse chão, desde a carta-régia que determinou a povoação dos campos de Guarapuava, até momentos importantes da história quando da passagem das tropas federalistas pela região ou da posição estratégica da cidade no processo de colonização e entrada forçada de portugueses e espanhóis no território indígena.

Aos poucos vamos falando de cada uma dessas lendas, causos e cada uma das histórias que o povo conta. Até breve!



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