Guarapuava

“Temos que encarar o fato de que a doença não está nem aí para a economia”, diz economista João Nieckars

Segundo ele, a quarentena é um fator decisivo, pois quanto mais adesão ela tiver, mais eficiente será em termos de contenção do vírus e diminuição da infecção

Foto: Anderson Zacalusni/Divulgação/Secom Guarapuava

25/03/2020 – 18:48:36

A pandemia da Covid-19 está afetando diversos países. Com aproximadamente 350 mil infectados diagnosticados ao redor do mundo, a principal recomendação da OMS (Organização Mundial da Saúde) para contenção do vírus é a quarentena.

Segundo o órgão, pedir às pessoas que fiquem em casa e estabelecer outras medidas físicas de distanciamento é uma maneira importante de retardar o avanço do vírus e de economizar tempo.

Seguindo as indicações da OMS, diversos governos instauraram a medida em países, estados e municípios. Mas qual o reflexo de uma quarentena na economia? Em entrevista ao iPolítica, o economista João Nieckars avalia os possíveis cenários frente a pandemia.

Como funciona a economia interna de uma cidade do porte de Guarapuava?

O setor de serviços, justamente o mais afetado pelo fechamento, representa 56% na formação da renda em Guarapuava, ou seja, com grande parte do comércio de portas fechadas, a maior parcela da renda local está comprometida.

A situação fica ainda mais grave quando consideramos que temos na nossa cidade 80 mil pessoas na faixa da pobreza e 20 mil na faixa da miséria. Esses grupos sociais trabalham para comer, não possuem poupança que lhes permita se manter por muito tempo (ou nenhum tempo) sem trabalhar.

É certo que em pouco tempo, coisa de um mês, a paralização fará o dinheiro sumir de circulação e teremos crise (recessão) – o problema é que não há forma de evitá-la, já que, quanto mais a contaminação cresce, mais instabilidade teremos na economia.

Não é ignorando ou minimizando a gravidade do problema que o resolveremos, mas reforçando as soluções. E a única que está dando certo, pelo que se nota dos dados da OMS, é o isolamento social total e temporário.

Se pensarmos nesse cenário a longo prazo, qual seria o impacto econômico para as micro e pequenas empresas do município?

Catastrófico. Não há dúvidas que o prejuízo econômico, além do humanitário, é um dos efeitos mais fortes decorrentes dessa pandemia que atualmente enfrentamos. Ninguém nega que a paralização ou diminuição da atividade produtiva, decorrente das restrições de circulação e convívio social, trará dificuldades para as empresas e trabalhadores, em especial em uma região pobre, como a de Guarapuava.

Em recente entrevista a Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo disse que as empresas a ela vinculadas têm condição de aguentar o fechamento por no máximo um mês e meio, depois disso é inevitável a quebradeira. Em Guarapuava não temos dados da Associação Comercial e Industrial a respeito da saúde financeira das empresas, mas a situação não deve ser muito diferente.

Nem as empresas e nem os trabalhadores têm condições financeiras para se manter parados por um grande período e é justamente por isso que a quarentena deve ser absolutamente respeitada por todos, pois quanto mais adesão ela tiver, mais eficiente será em termos de contenção do vírus e diminuição da infecção.

Estamos encarando a possibilidade de muitos comércios serem fechados?

Ninguém gostaria de estar passando por essa situação. Ninguém quer contrair essa doença, nem de perder familiares ou vê-los sofrer e ninguém gostaria de estar com sua empresa ou emprego ameaçados. Mas o coronavírus não se importa com as nossas contas ou com o nosso emprego.

Uma pessoa com qualquer outra doença, inclusive e, às vezes, uma simples gripe, precisa se tratar. Precisa ficar em casa de repouso ou ser internada e inevitavelmente perderá dias de trabalho, perderá dinheiro por conta da doença, mas tem consciência que a vida é infinitamente mais relevante que o dinheiro.

Empresas fecharão e empregos serão perdidos, sim. Agora temos que encarar o fato de que a doença não está nem aí para a economia. Por isso que é certo dizer que, antes dela (economia), temos que proteger a vida. Curar qualquer doença é doloroso e exige sacrifícios, muitos deles financeiros.

Sobre os auxílios que outros países estão oferecendo à trabalhadores. Qual a realidade econômica do Brasil nessa questão?

Todos os países estão fazendo sacrifícios imensos em seus orçamentos para garantir a contenção da doença, a manutenção da renda dos trabalhadores e a preservação das empresas. Claro que cada país age de acordo com o que sua capacidade financeira permite e no Brasil o Governo Federal, que é quem mais tem condição de agir (porque tem mais dinheiro), tem dado uma resposta aquém do esperado e isso tem gerado ainda mais temor na população.

As medidas que já deveriam ter sido tomadas pela União, a meu ver, são: a liberação do auxílio-desemprego em substituição ao pagamento dos salários pelas empresas, agilidade na concessão de benefícios sociais e determinação de suspensão de vencimentos de financiamentos bancários.

Com essas três medidas a agonia econômica que todos nós estamos sentindo, pela incerteza de termos ou não dinheiro para pagar as contas amanhã, sem dúvida nenhuma, seria amenizada.

Sobre a economia a nível mundial, haverá mudanças?

Sequer conseguimos dimensionar as consequências dessa crise sanitária no mundo, porque desde 1918, com a gripe espanhola, que não vivemos nada parecido, ou seja, não há paradigmas contemporâneos para podermos prever o que acontecerá com a economia.

Importante perceber que a crise é profunda e global, portanto, não existirão países imunes aos seus reflexos. Não estamos tratando de uma depressão setorizada ou localizada, mas de um profundo decesso na economia mundial que trará queda na renda, aumento do endividamento – privado e público – e instabilidade.

Economias mais fortes passarão pela crise com menos cicatrizes, mas de nada adianta ser rei sozinho e no deserto. A economia mundial passará por um novo arranjo pós-cornavírus.



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