OPINIÃO

7 de setembro antes e depois

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02/09/2021 – 14:41:41

João Nieckars

Quando criança eu estudava no Colégio Estadual Manoel Ribas, o Maneco. Todo ano, após a volta às aulas das férias de inferno, começava uma rotina que eu, particularmente, amava: os alunos eram dispensados da última aula e saíamos, todos, em direção ao pátio da escola para, de acordo com a altura de cada um de nós, formar filas, cantar o hino nacional e depois “ensaiar” a marcha para a parada anual de 7 de setembro.

Eu nunca fui bom com instrumentos musicais, aliás, sou péssimo nisso, então não realizei o sonho de todo aluno de integrar a banda, mas tive outra alegria: fui o porta-bandeira do Brasil em um dos anos. Esta é uma lembrança que carrego comigo até hoje: lembro claramente a sensação de, antes de começar o desfile, estar segurando bem firme o mastro com medo de fazer alguma coisa errada. De repente, eu me peguei olhando para cima, em direção à bandeira do Brasil – foi lindo ver o contraste entre o verde do pano e o azul do céu.

Lembranças ótimas da infância! Provavelmente, você aí, também lembra de algo parecido: todos juntos, celebrando, em união, a nação!

Infelizmente, essas memórias estão sendo suplantadas por uma realidade diferente, já que união parece algo bem distante da nossa atual realidade política. Esse ano sequer teremos desfile, embora, como você sabe, há um grupo de pessoas, estimuladas por Bolsonaro, que tenta organizar manifestações. O dia que costumava ser de todos os brasileiros, agora será de discórdia.

A data não poderia ser outra: 7 de setembro, em mais uma tentativa de carimbar com patriotismo essas ações, a exemplo do que foi feito com a bandeira nacional, a tal ponto que, nos últimos tempos, há quem enxergue nela, na bandeira, menos a nação e mais o terço do eleitorado bolsonarista.

Como quase tudo no Brasil de hoje, estas manifestações dividem opiniões e você pode ser contra ou a favor delas, que pra mim está tudo bem. Portanto, se você vai nas manifestações e gosta do Bolsonaro, agora é o momento certo para respirar fundo e conter aquela vontade uterina de me xingar que eu sei que está nascendo dentro de você nesse exato momento.

Falo amistosa e diretamente para você que vai marchar no dia 7. Veja, você pensa e age como quer, baseado na sua cultura, nos seus ideais e interesses e eu também – e está tudo bem! Acredite, está tudo bem! Não estou aqui para te julgar e nem para ser julgado

Eu só quero te dizer o seguinte: não adianta chamar galinha de pato e achar que só por isso ela vai nadar.

A comparação vale para a atual gestão.

Reflita. Sem escavar no Google, você conseguiria me dizer de cabeça uma conquista significativa do governo Bolsonaro? E, não, eu não estou falando de inaugurar pontes, mas quero saber de algo icônico que ele tenha pessoalmente criado e executado. Para facilitar, tente pensar em uma qualidade incontestável dele. Veio alguma ideia a cabeça?

Tão bem quanto eu, você sabe que, na prática mesmo, essas manifestações são orquestradas numa tentativa do Bolsonaro demonstrar prestígio e dar significado ao governo e a ele mesmo. Tire as entrevistas no cercadinho do Planalto, tire os passeios de moto, as infindáveis brigas com tudo (e com todos), o palavreado vulgar e o que sobra dele? Muito pouco ou quase nada.

Já se perguntou por que o presidente insiste deliberadamente em ser chulo, em ser grosso, em xingar e brigar, tudo isso apimentado por uma entonação belicosa, militar? É porque ele não tem mais nada a oferecer além disso. A única característica que faz Bolsonaro se destacar é truculência, não fosse por ela ele sequer seria lembrado – até porque só é lembrado por ela.

Eu não estou comparando ele com nenhum outro político, não, de forma alguma. Quero que pensemos no Bolsonaro, só ele, esqueça qualquer comparativo que possa ser feito e me diga: esse homem é realmente o melhor que nós temos para ocupar o cargo mais importante do nosso país?

Se você, como eu, queria alguém melhor, muito melhor, então mesmo pensando diferente, nós temos algo muito importante em comum. Não acha? E se você concorda que poderíamos e deveríamos ter alguém melhor na presidência da república, essa manifestação também não é pra você.


por:

João Nieckars

Advogado, economista e professor de direito empresarial

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