OPINIÃO

A busca pela felicidade nos transformou em retardados

Foto: Freepik

28/01/2022 – 07:48:41

Luiz Felipe

O exercício de felicidade rotineira é algo que particularmente me incomoda, sendo dois os motivos deste incômodo: os motivos para tal felicidade, ou seja, que muitas vezes passa por uma romantização da desgraça, ou – aí entra o segundo motivo – eu é que estou com sérios problemas e deveria procurar um psiquiatra ou algo do tipo. Então se você é daqueles que acorda bem-humorado pela manhã, que escuta o passarinho cantando perto da sua janela, tome um bom gole de café e não me escute, vá viver. Porque como diria um grande sábio, a ignorância é uma benção, diante disso, não leia minha coluna, vá ser feliz. O meu objetivo não é deixar ninguém feliz, principalmente porque não estou a fim. Mas se ficar, esteja ciente de que não será o mesmo ao terminar de ler este texto se o interpretou corretamente.  

Para falar de felicidade eu poderia recorrer à diversas daquelas frases motivadoras de para-choque de caminhão ou daquelas que surgem no meio de palestras “motivacionais” de coachs, isto é, trambiqueiros como “sucesso é uma decisão” ou algo do gênero. Mas a minha forma favorita é a velha “felicidade é um estado momentâneo” ou “existem diversos tipos de felicidade”. Mas comigo essas e outras não colam, afinal, eu sou historiador e, portanto, sei do que estou falando. Tenho propriedade para isto. Querer alcançar o estado de ser feliz é uma verdadeira praga nos tempos modernos, principalmente porque essa suposta felicidade gira entorno de status, do aparecer e não do ser, mas não quero falar sobre isso ainda.

Se você já passou dos 25 assim como eu e as coisas mais simples começam a te irritar, não é porque você está ranzinza e se tornou um verdadeiro Eustácio resmungão, o eterno personagem de “Coragem, o cão covarde”, mas é porque começou a perceber como a banda toca e nem sempre é um som que te agrada, mas que ilude, entorpece. Por outro lado, se você já passou dos 40, pode ter entrado numa espiral de querer ser feliz – o que não é nenhum problema, não tem nada de errado. Mas preciso fazer um alerta: querer ser feliz é uma praga, a mania da felicidade nos transforma em um bando de retardados e eu posso provar.

Você pode até discordar de mim, mas não pode negar que as formas com que buscamos de nos entorpecer diante da realidade nua e crua que bate à nossa porta todos os dias é um tanto quanto problemática, porque assim como qualquer droga, anestesiar-se da realidade é um caminho sem volta, pois com essa anestesia vem a romantização dos problemas: “poderia ser pior”, “pelo menos você tem saúde”. Nós escolhemos não enxergar os problemas que estão diante de nós e aí querer ser feliz é muito mais difícil quando tem aquele colunista chato e mal-amado que fica jogando na sua cara o quanto você leva uma vida medíocre e se contenta com o mesmo sempre, todos os dias. Pois bem, você gostando ou não, o problema não é meu, não espero agradar ninguém e nem quero, pois não é esse meu objetivo.

Mas voltando ao inferno de querer ser feliz, é notório o problema causado com a “produção” de felicidade no dia a dia. Se você tem filhos, sabe perfeitamente do que estou falando. Já dizia um ditado: o silêncio é sagrado, menos quando se tem filhos, porque aí ele é suspeito. Outro dia lá estava eu, excêntrico, tomando meu café no shopping enquanto lia um artigo de jornal que falava sobre a desistência do governo em querer manter um preço para os combustíveis. De repente, umas quatro ou cinco crianças entraram correndo seguidas pelos pais que já estavam descabelados e isso era somente na “entrada” do shopping, havia o piso superior inteiro para as crianças explorarem.

Aquela cena me fez perceber o quanto somos egoístas a tal ponto de colocar outros seres humanos neste planeta tão desigual somente para massagear o nosso ego e a nossa vaidade. Mais egoístas ainda se tornam os nossos filhos quando desejam sumir da nossa vista se tornarem livres, donos de si mesmos. Mas ainda defendo os filhos egoístas que crescem nas coleiras de um falso moralismo e que muitas vezes nem em meros acasos encontram a tal felicidade, porque esses é que acabam pagando por toda a irresponsabilidade, egoísmo, falso moralismo e caretice de uma geração inteira. Nossos pais tentam reproduzir em nós a frustração dos seus sonhos e, pior, ainda chamam isso de educação e amor maternal/paternal. Ora, ninguém pediu para nascer né? A vida é muito boa, mas é um porre às vezes.

E para quem encontra-se neste mesmo caminho, de perceber que a ignorância é uma verdadeira bênção e que te permite encarar uma fila gigante para pegar o lanche no bob’s ou no McDonalds para o diabinho parar de berrar no meio da praça de alimentação e parar de se jogar no chão enquanto grita, eu realmente desejo que você seja feliz do seu modo. Não dê atenção a colunistas frustrados que preferem dar ouvidos à razão quando se trata do comportamento social, mas que são completos retardados quando se trata de si mesmo, quase hipócritas. O melhor de ser um historiador ou um sociólogo é poder analisar o contexto, o amplo, o grupo, mas nunca voltar a lente do microscópio sobre si próprio, para isso pagamos uma fortuna em análise com um psicólogo que às vezes faz careta quando te enxerga e que sabe que você está lá no consultório dele porque a gente brega que educou uma geração inteira quer que seus filhos continuem bregas.

E por que resolvi malhar gente feliz hoje? Porque faz bem ao nosso ego, principalmente porque só queremos ouvir coisas legais, ninguém quer ouvir que é um porre, um verdadeiro pé no saco. Assim como gente legal demais também incomoda. Mas daqui uns dias o Carnaval está aí, espero que você não fique estressado dirigindo quatro horas para chegar ao litoral, se expor e pegar covid só para ser feliz no recesso do feriado porque você merece. Ser feliz é uma praga!

Eu me encontro em um momento em que quase tudo e todos me incomodam, mas é porque já estou cansado da vida e duvido muito que tudo isso um dia vá melhorar, mas se você é daqueles que vê esperança para toda essa zona na qual vivemos recentemente, não me escute, não me leia, viva do seu jeito e assim está ótimo, porque a ignorância é uma benção, quase uma virtude…que eu queria ter, mas não fui abençoado nesse momento. Sou ignorante do meu jeito, mas não feliz.


por:

Luiz Felipe de Lima

• Historiador •

Formado pela Universidade Estadual do Centro-Oeste – Unicentro;

Professor de História e Sociologia;

Pesquisador.

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