OPINIÃO

A História e o ofício do historiador

Foto: Freepik

18/08/2022 – 14:51:44

André Luís A. Silva

Celebrado no dia 19 de agosto, o dia do historiador, no Brasil, é uma data que relembra e homenageia o nascimento do historiador pernambucano Joaquim Nabuco (1849 – 1910), instituída por meio da Lei 12.130, no ano de 2009. Em vida, publicou quatorze obras de diferentes gêneros literários: biografias, história diplomática, memórias e poesias. Além de historiador, Joaquim Nabuco também foi escritor, diplomata e Deputado Federal pelo estado de Pernambuco, onde ganhou destaque pela sua defesa intransigente pelo fim da escravidão em seus discursos no Parlamento brasileiro, ao mesmo tempo que buscava apoio na Europa e escrevia artigos para jornais denunciando os absurdos da escravidão. Também, em 1897, foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. Com efeito, Joaquim Nabuco é homenageado em várias cidades pelo Brasil, levando seu nome em denominações de ruas, avenidas e praças, bem como na Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ), criada em 1947, no intuito de preservar a memória e o legado do historiador nas regiões norte e nordeste.

Como mencionado, há pouco mais de uma década que o dia do historiador foi instituído no Brasil, porém, a profissionalização deste ofício é ainda mais recente. A profissão de historiador foi reconhecida e regulamentada no Brasil somente em 2020, através da Lei 14.038/2020, muito atrasado em comparação com a Alemanha e a França, que foram os primeiros países a profissionalizar o ofício do historiador ainda no século XIX. De fato, a profissionalização do trabalho do historiador acontece ao mesmo tempo em que a própria história conquista seu status de ciência. E, aqui se encontra um ponto importante, pois, nem sempre o ofício do historiador e a história foram os mesmos ao longo do tempo.

Até meados do século XIX, a história era um campo de estudos que estava preso à filosofia e à literatura. A história estava ligada inteiramente aos fatos do passado. A importância em estudar o passado era para saber como agir quando aquele passado se repetisse no presente ou em um futuro próximo. Este modo de entender o tempo e a história pressupõe que a natureza humana é estável e não se modifica, por conta disso, o passado é composto de diferentes experiências que devemos estudar, pois nos ensina para viver. Assim, a história é a mestra da vida e o historiador é aquele que acumula, organiza e registra as vivências deste imenso passado. Com efeito, este paradigma da história não sumiu, mas acabou entrando em desuso pelos historiadores após a Revolução Francesa (1789 – 1799), pelo motivo de que ela representa o fato novo, que não foi vivenciado no passado. Ou seja, não existem experiências no passado que nos ajudem a entender aquele momento histórico na França. Por isso, a Revolução Francesa também é entendida como uma ruptura com a história mestra da vida, pois ela vai mudar a noção de historicidade, isto é, a forma como os historiadores pensam o tempo e trabalham com a história.

Deste modo, foi no decorrer deste mesmo século que emerge um novo paradigma da história que, aos poucos, vai transformando o entendimento dos historiadores sobre a temporalidade. Agora, o passado não é mais um monte de experiências que estudamos para agir no presente e no futuro de acordo com as nossas necessidades. O passado é o que já passou, é o atraso, não nos ensina mais nada e, por conta disso, deve ser superado. O presente somos nós, e o futuro é o nosso destino. Nota-se, que este novo modelo explicativo de entender a temporalidade da história está atrelado aos ideais iluministas, a ideia de progresso. A compreensão de que caminhamos todos juntos para o futuro, e que ele é uma grande expectativa.

Esta nova concepção de história e também este novo modo de organizar a temporalidade, vai ajudar na luta dos historiadores em fazer a história conquistar sua independência, tornar-se uma ciência e ter reconhecimento da sua especificidade. Neste sentido, talvez um dos grandes responsáveis por este processo tenha sido o historiador alemão Leopold von Ranke (1795 – 1886), considerado o pai da história-ciência, devido às suas contribuições com o campo, como por exemplo, a introdução de um método científico crítico e rigoroso para a pesquisa histórica, realizado através do uso de documentação oficial, caráter dado às fontes oriundas do Estado ou da igreja. A mudança na concepção do que era a história e do que deveria ser o trabalho do historiador também permitiu a organização de arquivos de documentação, a preservação e a restauração de documentos e obras históricas. No entendimento de Ranke, o passado estava nos documentos que precisavam passar pela crítica interna e externa e, só depois disso, o historiador poderia escrever a história, de forma cronológica, com ênfase em datas, nomes e fatos. Este era o ofício do historiador, escrever os fatos como eles realmente aconteceram. Nascia, assim, a história-ciência, um conhecimento verdadeiro, imparcial e objetivo, tendo como expectativa o futuro e o progresso.

Logo, a história produzida por Ranke e pela Escola Histórica Alemã preponderava as elites e os vencedores como heróis, destacava os grandes fatos e os grandes nomes. A história era exacerbadamente política. O fato histórico era o fato político, pois a política era a preocupação do século XIX e dela emergiam os grandes problemas a serem resolvidos. Diante disso, a história foi utilizada para a unificação da Alemanha, bem como, para a construção dos Estados Nacionais por toda a Europa. A história também foi a principal ferramenta para delimitar as fronteiras, criar o sentimento de pertencimento a uma nação, definir a identidade e a cultura dos povos. Não é à toa que a história vai se tornar uma disciplina universitária e uma grande educadora cívica. A história ciência e o ofício do historiador se espalharam por toda a Europa e, ao final do século XIX, já possuíam funções muito bem definidas; narrar o passado e organizar a nação para o futuro e o progresso.

Na primeira parte do século XX, os historiadores e a história abriram novos horizontes, a política é deixada um tanto de lado e as questões sociais e econômicas ganham destaque. Agora, não existe mais uma dimensão privilegiada (política), como havia no século XIX, afinal, com o avanço do capitalismo pelo mundo, novos problemas são colocados sob a mesa de análise dos historiadores, como por exemplo, as relações de trabalho e a desigualdade social e econômica, temáticas importantes para a história, que possibilitam a abertura de diálogo e interdisciplinaridade ampla com as ciências sociais, uma aliança realizada através de reflexões, métodos, conceitos, noções e categorias.

Aos poucos, a história demonstra que é uma ciência que se configura muito mais do que apenas fatos, eventos políticos e um estudo do passado. Nesta nova perspectiva, a história trabalha com a vida humana no tempo sob diferentes esferas: política, econômica e social, dimensões que se cruzam e se interligam em vários momentos da pesquisa histórica. Há, ainda, que ressaltar a mudança substancial em relação ao entendimento do que é o passado e do que são fontes históricas. De fato, o passado não existe mais, ele está morto, dele só sobraram os fragmentos, as pistas, os vestígios, os indícios e as ruínas. Portanto, tudo o que sobrou da presença humana no tempo pode servir de fonte para o historiador, que deve problematizar esses documentos a partir das questões elencadas no presente. Chamada de história-problema pelo historiador francês Marc Bloch (1886 – 1944), são as perguntas no presente que vão articular a abordagem nas fontes. Toda pesquisa histórica nasce de uma inquietação no presente, é o questionamento das fontes que levantam as hipóteses que serão testadas nos documentos.

Assim, a análise das fontes históricas pelo historiador é que vai nos mostrar as séries, as permanências, os desvios e as rupturas no meio social. A história não é uma ciência nomotética, isto é, movida por leis, assim como as ciências exatas, pois, ela trabalha com os fatos, e o fato é resultado do procedimento de uma operação historiográfica. Michel de Certeau (1925 – 1986), historiador francês, ressalta que a história é uma produção, é uma operação de escrita. Para ele, a disciplina da história está presa na ideia de ser uma prática, realizada por meio de um procedimento, uma produção de conhecimento e uma escrita, ou seja, o ofício do historiador é transformar os fragmentos e vestígios do passado em um texto, em uma narrativa compreensível, mas, ao mesmo tempo, com inteligibilidade e erudição para seus leitores. As fontes históricas dizem o que o historiador pode e não pode escrever, logo, o resultado da sua operação historiográfica é uma verdade possível daquele passado, diferente da imaginação, da fictícia e da literatura.

Se na primeira parte do século XX, as questões sociais e econômicas foram as novas preocupações da história e dos historiadores, na segunda metade do mesmo século e, até a nossa atualidade, a cultura ganha espaço nas inquietações. A imersão à cultura faz a história e os historiadores problematizarem as identidades, os direitos civis, a sexualidade, os hábitos, os costumes e as relações de poder, ver as memórias subjugadas e esquecidas e questionar a relação dos seres humanos com o meio ambiente. Ainda mais recente, talvez uma das grandes tendências na história seja por uma história global, isto é, discutir problemas para além do nacional, como por exemplo: pandemias, migrações, a precarização do trabalho, as relações comercias, o consumo em massa e os problemas com o meio ambiente. São temas transnacionais que transcendem uma única nação e estão conectados entre tantas outras. Essas são as preocupações da história e dos historiadores, porque são os problemas deste século que exigem respostas.

É importante enfatizar que o historiador não é uma espécie de juiz da história. Ele não julga pessoas ou fatos, mas, sim, compreende, interpreta, entende, sente e analisa. Tudo isso sem esquecer seu compromisso com a verdade e com a ética. Os historiadores também não são profetas, videntes do futuro. Como mencionado, o objeto de estudo dos historiadores são as ações produzidas pelos seres humanos no tempo, por isso, o ofício do historiador é embasado em documentação histórica, em uma metodologia de trabalho adequada para cada tipo de pesquisa, ao mesmo tempo, costurada por conceitos, noções e categorias que auxiliam o historiador a dissertar sobre sua problemática e a produzir uma escrita que é folhetada, cheia de notas de rodapé que confessam seu lugar de produção, seus procedimentos e todo o caminho percorrido.

A história sempre está aberta para as novas tendências, é uma ciência em marcha que possui uma função crítica, inclusive sobre si mesma, e isso é visível neste próprio texto que descreveu, ainda que brevemente, as transformações da história e do ofício do historiador desde o século XIX, até nossa atualidade. Sobretudo, é a sua transformação no tempo que lhe faz permanecer uma ciência. A história é um conhecimento empírico, inacabado, sempre aberto, que nos ajuda a compreender o mundo. Em diferentes escalas, ela olha para o micro e para o macro, para o individual e o coletivo. Mostra a desnaturalização das coisas, do que é dito e nos apresentado como essencial e natural para nossa condição humana. Seu estudo nos possibilita a crítica, a reflexão e o entendimento da nossa própria cultura. Também, nos traz empatia, porque por meio dela podemos conhecer e respeitar o outro, as outras culturas. Estudar história é necessário para compreender as permanências e as mudanças históricas na sociedade em que vivemos. Afinal, todos nós fazemos a história e também somos feitos por ela.


por:

André Luís A. Silva

Historiador, professor e doutorando do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual do Oeste do Paraná

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