Animal silvestre não é pet

Foto: Freepik

01/05/2023 – 11:30:27

Luiz Felipe

Quando se pensa que já viu de tudo, sempre aparece algo que te deixa ainda mais impressionado. Parece que a internet ficou paralisada, de olho no “drama” vivido entre o influenciador amazonense Agenor Tupinambá e sua capivara de estimação, Filó. Sim, você não leu errado, uma capivara de estimação. Nem sei por onde começar para dizer o quanto isso é ridículo e perigoso, tanto para o animal quanto para os seres humanos.

O Brasil inteiro enfrenta diversos problemas quando o assunto é a nossa fauna, que vai desde a destruição dos habitats naturais desses animais (florestas), fuga para centros urbanos, tráfico de animais, caça indiscriminada, matança e outros tipos de maus-tratos que nem imaginamos que esses animais podem sofrer. Tudo começa com o caráter exótico que a natureza ganha na visão de alguns, em que criar uma capivara, uma serpente ou uma arara azul é lindo, maravilhoso, mas é também um crime contra a natureza, além de crime ambiental.

O jovem do Amazonas em questão começou a divulgar a vida na fazenda no interior do estado do Amazonas, onde a rotina era divida com a capivara chamada de Filó, além de um biguá, um porco, um papagaio e outros animais que recebiam cuidados do fazendeiro. Estava tudo bem até que o Ibama notificou e aplicou uma multa ao rapaz no valor de R$ 17 mil no último dia 18. Agenor foi denunciado por suspeita de abuso, maus-tratos e exploração animal.

A “tara” do ser humano por animais silvestres não é de hoje; durante muito tempo o Brasil foi alvo de estrangeiros que vinham para a América do Sul em busca de animais exóticos retirados da floresta Amazônica, do Pantanal e de outros biomas do país. Quando os estrangeiros deixaram de caçar a nossa fauna, foi a vez do próprio brasileiro lucrar em cima do sofrimento animal com o tráfico de animais e a caça e matança; o tráfico de animais – segundo estimativas de organizações internacionais, é um dos mais lucrativos dentro do mercado clandestino, chegando a render mais de 20 bilhões de dólares por ano. As principais vítimas são aves e répteis, mas pode envolver felinos como tigres siberianos, jaguatiricas, leões e até a nossa onça-pintada. No caso das aves, a Amazônia e a Mata Atlântica são os principais alvos, enquanto que no caso de alguns répteis, as florestas da Indonésia, no sul da Ásia e da Floresta do Congo, na África Central, são os principais habitats de espécies raras.

Por que não é possível ter uma ‘Filó’, a capivara?

Diferente de cães e gatos que passaram por um longo processo de domesticação ao longo das décadas, animais silvestres como a capivara fazem parte de um grupo muito diferenciado, que não devem estar em contato, muito menos em convívio com os seres humanos. Se você, assim como eu, lembra das aulas de ciências e de biologia na escola, vai saber o mínimo sobre os conjuntos e a estrutura que a natureza tem para manter-se em ordem.

Além de causar danos e sofrimentos ao animal, o convívio com um animal silvestre também traz riscos à saúde humana, uma vez que os vírus e bactérias que atacam esses animais são desconhecidos pelos cientistas. Os animais nasceram em um ambiente totalmente diferente de uma casa ou um apartamento e, assim como o animal pode contaminar o ser humano, o inverso pode ocorrer também em algumas ocasiões, que são as chamadas zoonoses reversas. O controle que temos com cães e gatos (ou que deveríamos ter) como a vacinação correta e demais tratamentos veterinários faz com que possamos ter controle sobre certas doenças, mas com os animais silvestres não é assim que a banda toca. Além disso, o mundo ainda se recupera de uma pandemia causada por um novo tipo de vírus SARS, além das pneumonias, leptospirose, raiva e outras doenças que podem ser causadas por esses animais, além da zoonose reversa, como dito anteriormente.

No caso da capivara Filó, que já nasceu fora do seu habitat natural (a mãe havia sido capturada por indígenas), não significa que o risco é menor, muito pelo contrário. O animal está muito mais exposto, pois a espécie não está habituada com outros ambientes que não o das florestas, lagos, rios. O convívio com pessoas e outros animais dentro da fazenda onde era criada poderia ter sido totalmente irreversível para Filó. E, embora visivelmente ela esteja bem, não significa que sua saúde esteja, é necessária uma avaliação completa por parte de um médico veterinário para analisar as condições em que o animal se encontra.

O drama nas redes sociais

Tão logo a notícia da multa aplicada pelo Ibama se espalhou, internautas de todo o país se revoltaram com o órgão por agir dentro de suas diretrizes e obrigações que é a da proteção das florestas, bem como da fauna.

A romantização do episódio é um passo perigoso, pois pode incentivar outras pessoas a retirarem animais silvestres de seus habitats, o que além de criminoso é uma tremenda idiotice. O pouco que nos resta desse mundo está sendo destruído a cada dia que passa. Toda vez que o ser humano interfere na natureza há uma consequência direta, que muitas vezes não é perceptível aos olhos humanos. Imagina se todo mundo tem a brilhante ideia de começar a domesticar animais silvestres? A cadeia alimentar tem um papel fundamental em toda a estrutura da natureza, que se equilibra perfeitamente sozinha quando não atingida pelas ações humanas; interferir é causar danos aos animais e a nós mesmos, tudo isso porque a ganância fala mais alto e, quando não envolve dinheiro, é alguém com tempo de sobra que vai procurar chifre em cabeça de cavalo.

E sabe como o Ibama chegou ao rapaz? Após sinal de maus-tratos, não contra a capivara, mas contra outros animais – incluindo um bicho preguiça, que apareceu morto na casa do influencer. E você aí achando que era só amor com os animais, não é? Em vez de um animal silvestre, adote um cão ou um gato, existem milhares nas ruas de todo o Brasil. Esses, além de serem domesticados, estão precisando de cuidados extremos.

O tráfico “legal”

Infelizmente a legislação brasileira também incentiva o tráfico de animais. Hoje são vários os criadouros “legais” que também contém animais silvestres fora de seu habitat natural. Mais de 80% desses animais não podem mais retornar à floresta, pois morreriam devido ao fato de que nasceram em cativeiro ou foram domesticados de tal maneira, que perderam seus instintos de sobrevivência e acabariam por desordenar ainda mais o ecossistema. 

Recentemente, um dos criadouros que entrou na mira do Ibama foi o Instituto Onça Pintada, em Goiás, que foi multado por maus-tratos e abuso dos animais. O instituto foi notificado depois que várias onças, além de outros animais, acabaram morrendo em cativeiro.

Luiz Felipe de Lima

• Historiador •

Formado pela Universidade Estadual do Centro-Oeste - Unicentro;

Professor de História e Sociologia;

Pesquisador.