OPINIÃO

Brava gente brasileira!

Imagem: Reprodução

07/09/2021 – 08:22:16

André Luís A. Silva

O título acima é o início do refrão do Hino da Independência, composto por D. Pedro I, cujo a letra foi escrita pelo jovem poeta brasileiro Evaristo de Veiga. De acordo com o historiador Eugênio Egas, a música teria sido composta pelo imperador no mesmo dia do Grito do Ipiranga, isto é, em 7 de setembro de 1822, data na qual comemoramos a Independência do Brasil.

Para os saudosistas do Império, D. Pedro I é visto como um herói nacional, já para os republicanos do início do século XX, ele é um tanto esquecido. O fato é que a historiografia brasileira não faz uma leitura dicotômica de D. Pedro I, mas, compreende-o como um personagem importante dentro do encadeamento de episódios independentistas que fizeram nascer o Brasil que conhecemos.

De fato, o Brasil nasce em 7 de setembro de 1822, mas seu processo independentista antecede a pelo menos dois marcos importantes na história. O primeiro deles é o ano de 1808, marcado pela chegada da família real ao Brasil, fugida das guerras napoleônicas na Europa. Sua instalação foi na cidade do Rio de Janeiro, a qual foi elevada à condição de capital do Império Português, que assim permaneceu até 1821. Neste intervalo de tempo, a cidade recebeu uma ampla repaginação urbana, sobre seu solo foi construído o Banco do Brasil, a Academia Real Militar, a Imprensa Régia, a Biblioteca Nacional, e as escolas técnicas para formação dos burocratas da administração. O outro marco ocorreu em 1815, ano em que o Brasil é elevado à condição de reino, deixando de ser uma colônia portuguesa e passando a fazer parte do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Na prática, a posição política e econômica do Brasil melhorava, agora não havia mais o monopólio do comércio e os tratados comerciais não possuíam intermediários, características da época colonial. Estes dois episódios são essenciais para entendermos o processo que levou o Brasil para sua independência em 1822.

Com efeito, o Brasil fazia a independência sob o comando do Príncipe D. Pedro, ou faríamos sem ele. O fato é que a conjuntura política na América indicava ser inevitável controlar os movimentos independentistas. Dos Estados Unidos ao Brasil, entre 1776 e 1822, vários países conquistaram suas independências, a exemplo do Haiti (1804), Paraguai (1811), Argentina (1816), Chile (1818), Venezuela (1819), Colômbia (1819) e México (1821). Após a Independência do Brasil, os movimentos ainda se estenderam com força pela América do Sul, visto que Peru (1824), Bolívia (1825) e Uruguai (1828), também se tornaram independentes de suas metrópoles. Na segunda metade do século XIX, os movimentos avançaram para a América Central.

Muito se fala que a Independência do Brasil foi diplomática, sem conflitos. O que de fato é uma meia verdade, pois, nossa luta pelo processo independentista não se compara, por exemplo, com os dez anos de guerra que tornaram os Estados Unidos independente da Inglaterra, ou pelas décadas de combate na América Espanhola, que resultaram na independência de vários países. Ainda assim, no Brasil, houve resistência, nossa independência durou cerca de 3 anos para ser consolidada. No litoral das províncias da Bahia e Piauí, aconteceram confrontos com as tropas comandadas por Portugal, que aos poucos foram vencidas.

Somente em 1825 o rei de Portugal, D. João VI, reconheceu a Independência do Brasil. O Tratado de Amizade e Aliança firmado entre Brasil e Portugal legitimou o Brasil como um estado soberano, também, nos exigiu o pagamento de uma indenização substancial para Portugal, bem como, a assinatura de um tratado de comércio com o Reino Unido, devido a sua mediação no acordo entre as partes. Logo depois, os ingleses também reconheceram nosso processo independentista, para a Inglaterra, o reconhecimento tinha um enorme valor mercantil, visto que sua relação comercial com o Brasil era muito maior do que com Portugal.

Também é importante ressaltar que nosso processo independentista possui particularidades. Quando olhamos para nossos vizinhos que se originaram da América Espanhola, percebemos inúmeras fragmentações territoriais, a adoção do sistema republicano e a abolição da escravidão algumas décadas antes que no Brasil. Se a Independência não tivesse sido realizada pelo Príncipe D. Pedro teríamos seguido por este caminho? É uma questão para se pensar.

Todavia, por aqui, a independência fez nascer um Brasil imperial, com vasto território, e abolição gradual da escravidão, a qual só se concretizaria definitivamente em 1888. Outra particularidade brasileira é que não existia, no início do século XIX, o sentimento de identidade nacional, não havia unanimidade, afetos que ligassem as diferentes culturas e povos que aqui viviam. Ser brasileiro(a), nessa época, significava ser um comerciante de pau-brasil. A identidade nacional só começou a ser construída no Segundo Império, com D. Pedro II em 1840, através da literatura, da arte e da música.

Em 1843, o poeta e escritor brasileiro Gonçalves Dias escreveu o poema Canção do Exílio, no qual o viés romântico ressaltava os valores naturais do Brasil, o patriotismo e o saudosismo pela sua terra natal. Na década seguinte, o historiador Francisco Adolfo de Varnhagen produziu uma extensa bibliografia entre 1854 e 1857, intitulada História Geral do Brasil, nela, o autor trata do início da colonização brasileira, do governo colonial, das sucessivas administrações e conflitos em nosso território. Sua obra é considerada um clássico na historiografia brasileira, justamente por buscar definir o que é o Brasil e quais são nossas heranças culturais. As obras produzidas pelo escritor José de Alencar também contribuíram para a construção da identidade nacional, o destaque é por conta de sua trilogia indianista, O Guarani (1857), Iracema (1865) e Ubirajara (1874). Ambos os romances possuem uma temática nacionalista, idealizando heroicamente os indígenas como os primeiros e originários habitantes do Brasil. O músico Antônio Carlos Gomes compôs a ópera O Guarani, em 1870, destacando-se por ser a primeira ópera aclamada na Europa, conhecida até hoje por ser o tema de abertura e enceramento do programa radiofônico A Voz do Brasil. Da arte também vieram contribuições, Pedro Américo pincelou o quadro Independência ou Morte, em 1888, produzido já na decadência da monarquia brasileira, seu intuito era consagrar o gesto de D. Pedro I ao proclamar o Grito da Independência nas margens do Rio Ipiranga, em São Paulo. Também vale lembrar de Machado de Assis e a exaltação da identidade nacional em sua extensa literatura, assim como, tantos outros artistas e intelectuais que pela segunda metade do século XIX contribuíram de algum modo.

Como mencionado, o Brasil nasce em 7 de setembro de 1822, mas nossa identidade nacional é construída ao decorrer do século XIX, centralizada politicamente no império e geograficamente na cidade do Rio de Janeiro, sob a tutela da elite econômica e intelectual brasileira.

Na atualidade, os debates sobre a identidade nacional ainda são fervorosos dentro das ciências humanas, até hoje ela tem sido objeto de estudo e responsável pela edificação de grandes obras. Afinal, quem somos nós? Continuamos sendo bravos e corajosos como aclamado no Hino da Independência, ou tudo faz parte de uma construção sociocultural? Quem são os 213 milhões de brasileiros e brasileiras? Bom, isto é uma longa conversa para outro dia.


por:

André Luís A. Silva

Historiador, professor e doutorando do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual do Oeste do Paraná

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