OPINIÃO

Causas que nos abraçam

Foto: Pixabay

01/11/2021 – 11:34:25

Alexsander Menezes

As portas de completar meio século de vida perdi as contas de quantas vezes ouvi expressão “abraçar uma causa”, e na última semana percebi que estava engajado em uma enormidade de causas cuja maior parte fora inserido de forma involuntária –  no melhor sentido desta palavra.

Essa percepção me fez pensar sobre o fato incontestável que não somos nós quem abraçamos nossas causas, não somos nós quem as escolhemos, e de fato são elas que nos escolhem, acolhem, e aceitam e em nossa percepção limitada – afinal todos em maior ou menor grau se sentem o centro do universo – não nos damos conta de quão limitada é a nossa escolha em relação às lutas que nos engajamos.

Esse insight surgiu em um momento em que me vi rodeado de estudantes secundaristas em uma escola técnica de minha cidade, mobilizados contra a extinção do curso técnico de meio ambiente, mais um absurdo dentre tantos outros ataques ideológicos à nossa educação pública.

Visceralmente ligado à militância política e sindical, me perguntei o motivo de me ver engajado nessa causa ao lado de uma juventude com tanta energia entusiasmo e futuro pela frente, de que maneira eu poderia contribuir com quem tem tanto mais a oferecer.

Na mesma noite estive em um evento cujo principal participante era um de um homem octogenário que aos olhos limitados por estereótipos, esperava-se uma vitalidade e energia oposta aos jovens com quem estivera na mesma tarde.

Por quase duas horas e dezenas de falas, aquele homem de cabelos brancos e face vincada pelos anos de vida observava atentamente cada um dos participantes, e ao mesmo tempo, boa parte dos jovens com quem estive mais cedo, traziam palavras de ordem, palmas, cantavam e gritavam com uma energia invejável.

Entre estes dois extremos lá estava eu, entre a vitalidade da juventude e a serenidade dos longos anos de estrada, ainda com a ilusão de ser o senhor das escolhas das causas em que estava envolvido.

Em determinado momento, aquele homem, que ao que tudo indicava estaria limitado pelo peso dos anos foi a tribuna, e me dei conta de que eu não poderia estar mais equivocado, percebi em sua fala firme a mesma vitalidade dos jovens que encontrei nos corredores da escola secundária.

Percebi que em algum ponto da história daquele homem, talvez ele tenha se perguntado o que estaria fazendo em meio a pessoas bem mais novas, ou envolvido em mais uma causa, e percebi que esse talvez seja o segredo, não somos nós quem escolhemos as lutas, são elas quem nos escolhem, quem nos adotam, e que somos nós quem precisamos delas e não o contrário.

Ao sermos adotados por essas lutas, somos nós quem somos presenteados com vitalidade, aprendizado, renovação e perspectivas de caminhos que muitas vezes julgávamos perdidos ao longo da nossa jornada.

Percebi que nada é mais enganoso que a sensação de que abraçamos voluntariamente nossas causas, são elas quem nos escolhem e são elas quem nos julgam dignos da sua escolha.

O momento que nos damos conta dessa verdade – se não me engano o termo para isso é epifania – marca uma transição entre limitações que nós mesmos nos impomos, vou citar a idade para ficar em um só exemplo, e o rompimento de barreiras que só existem em nossos próprios conceitos.

No fim das contas, a lição desta semana que se encerra ao que parece perdurará pelos meus anos futuros é que são as boas causas quem nos escolhem, e a nós, cabe estarmos a altura desse presente.


por:

Alexsander Menezes

Administrador pela Universidade Católica de Brasília e especialista em Gestão de Pessoas e Liderança pela Universidade Cândido Mendes do RJ. Empregado dos Correios há 20 anos, atualmente é membro da Comissão de Relações Internacionais da Federação Nacional dos Trabalhadores dos Correios.

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