OPINIÃO

Entre a insanidade e a barbárie: qual o limite do ser humano?

Foto: William Batista/RPC

05/09/2022 – 08:01:41

Luiz Felipe

Eu confesso a vocês que pensei mais de uma vez sobre escrever esse texto ou não. E esse dia de hoje revela grandes ações por parte da investigação da Polícia Civil, que deverá ser concluída hoje (05). Emitir uma opinião é sempre fácil, pois a interpretação dos fatos – inicialmente – demanda apenas da observação e depois dissertar sobre aquilo que te chamou a atenção enquanto observador. Um amigo me disse um dia: dar opinião é fácil, difícil é viver a situação que gerou a sua opinião. Em certos pontos, ele está correto no seu argumento, é uma visão da qual compartilho. E é fácil porque é opinião, não tem um embasamento científico, é apenas senso comum. Todavia, muitas vezes nos deparamos com situações que extrapolam o nosso bom senso e é aí que o ódio acaba falando mais alto e buscamos, de toda a forma, uma justificativa para o nosso pensamento. Às vezes a razão fala mais alto, mas por outro lado, às vezes preferimos aceitar o nosso próprio extremismo para não acharmos que somos os únicos loucos do mundo.

Sim, eu estou falando da criatura que biologicamente é a mãe daquelas duas almas inocentes que tiveram suas vidas ceifadas por esse ser abominável, que está longe de ser um monstro. Precisamos derrubar por terra essa visão de que pessoas horríveis são monstros, pois essa leitura fantasiosa nos deixa sempre entorpecidos, nos faz acreditar que o ser humano dito normal não é capaz de cometer um ato de barbárie. Pois bem, dito isso, continuo: é um ser abominável? É. É um monstro? Não, é um ser humano dotado de crueldade e de uma patologia social; digo social porque, para chegar ao campo mental, somente um profissional de saúde é que poderá emitir um laudo baseado em critérios científicos e não em análise de botequim.

Para entender alguns passos dessa coluna será necessário voltar algumas casas, para ser mais específico nas aulas de sociologia que você teve no colégio ou na universidade. A civilização moderna é movida pelo ódio e pela violência, embora muitos não queiram acreditar nisso. O brasileiro cordial, aquele descrito pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda, é uma mera ficção, um conto da carochinha e contribui apenas para a venda de ilusões sobre um país pacífico, um país que tem seus conflitos regionais, mas nunca guerras…guerra civil é coisa de argentino e venezuelano, o Brasil tem apenas revoltas. (Contém ironia).  

A matança desgovernada é algo que está no nosso DNA enquanto nação e ainda que não seja uma exclusividade brasileira, por aqui as coisas possuem um status de barbárie, como se houvesse o gosto pelo homicídio indiscriminado, pelo discurso de ódio, do ataque contra as minorias, das ameaças, do discurso nazista, violento e conflitante tido como natural ou, pior, como algo natural da liberdade de expressão. Matar é intrínseco da espécie humana, para que haja vida sempre existirá a morte; é um paradoxo que o mundo cristão e conservador ainda não engoliu, mas é assim que a banda toca, principalmente porque somos movidos pela hipocrisia nossa de cada dia. A única diferença é: qual morte lamentamos e qual comemoramos?

A soma desses fatores expõe um único resultado: somos uma sociedade de doentes, desajustados. O sociólogo francês, Émile Durkheim, cantou essa bola no século XIX e nos apresentou o famoso estado da anomia social, isto é, o estado da ausência de regras e normas, onde há o indivíduo que desconsidera os controles e as normas de controle social que são impostas para que haja a convivência pacífica. Ao desconsiderar tais normas, o sujeito acaba por interferir em um sistema que tinha tudo para ser perfeito e funcionar muito bem – em teoria. Ao matar, cometer suicídio ou romper qualquer outra norma, o sujeito está rompendo também o laço normativo criado para estabelecer ordem no corpo social e aí surge a anomia/patologia social, a sociedade doente.

E quando tragédias batem à nossa porta, em um primeiro instante, ficamos horrorizados, mas a bem da verdade é que já não estamos mais tão interessados no assunto e isso não ocorre por vontade própria ou porque não temos mais empatia, mas justamente pelo fato de que já estamos anestesiados com a barbárie a tal ponto, que corre o risco de uma normalização como fato corriqueiro, selado com um conformismo medíocre adotado como mantra de vida: “faz parte”. Não, não faz e nem deveria fazer. O ato da barbárie, ou da crueldade em si, deveria causar um efeito grandioso – não no sentido de espetáculo, mas sim no sentido de chamar a atenção para o horror e para quais medidas devem ser adotadas para combater esses atos.

A tragédia que chocou essa cidade é mais uma no hall de coisas inacreditáveis das quais o ser humano é capaz de produzir contra seus semelhantes e contra aqueles – no caso da assassina confessa – que por regra da natureza deveria haver a máxima proteção. Um fato comprovado é que maternidade e paternidade não são para qualquer pessoa e por uma prática patriarcal, mulheres são cobradas dez vezes mais a respeito da maternidade, enquanto homens raramente – ou quase nunca – sofrem a mesma cobrança. O abandono paterno caracterizado nesta tragédia é, sem dúvida, um fator contribuinte – todavia, não deve servir de muleta para dar apoio a uma homicida ou passar a mão na cabeça de quem matou de forma – supostamente – premeditada os próprios filhos.

Acompanhando as declarações da delegada responsável pelo caso, muitas questões me passaram pela cabeça. Uma delas é que enquanto a escola já havia notado a falta das crianças e até mesmo o porteiro já tinha percebido também, Eliara estava dentro do apartamento trabalhando normalmente como se fosse uma planta que houvesse morrido. Nas palavras da delegada, dra. Ana Hass, o local tinha um sofá-cama armado na sala e havia também a presença de roupas sujas de sangue. Outro fator mais chocante ainda é a premeditação, linha que a Polícia Civil irá adotar para formar o caso contra a acusada, somando a isso também o fato de que Eliara teria mudado para Guarapuava já com a intenção de assassinar os filhos. Acha que fica nisso? Pode piorar e muito. Alguém – não se sabe quem, nem se foi intencional ou acidental – vazou dois vídeos que mostram os pequenos mortos em cima de uma cama. Lembra do começo do texto, quando eu falava da sociedade doente? É isso. Esses vídeos rodaram as mídias digitais via WhatsApp e caracteriza um fator bem importante sobre a raça humana: o bicho gente gosta da desgraça, gosta de sangue, é masoquista e também sente prazer ao disseminar essas informações. É repugnante, no mínimo.

E é óbvio que alguém que passa 15 dias com dois cadáveres – ainda mais os dos próprios filhos – não está em seu estado normal, e é provável que insanidade mental será a linha adotada pela defesa (nomeada pelo judiciário), mas atestar insanidade é muito fácil depois de cometer a brutalidade. Mais um ponto que comprova o quanto nossa sociedade já está podre, é o fato de que algumas pessoas estão convencidas – e falaram abertamente que poderiam fazer a defesa da assassina – fazendo parecer normal, como se fosse simples delito em vez de duplo homicídio. Minimizar o efeito é a mesma coisa que ser cúmplice do assassinato; é óbvio que por não vivermos em uma ditadura, a acusada tem o direito da ampla defesa, mas também preferiu ficar em silêncio durante o depoimento na delegacia. Ela preferiu buscar desculpas para o injustificável. É preciso separar o joio do trigo, não se pode utilizar o drama social do abandono paterno como justificativa para o duplo homicídio de duas crianças por parte da própria mãe. Não existe justificativa para o abominável. 


por:

Luiz Felipe de Lima

• Historiador •

Formado pela Universidade Estadual do Centro-Oeste – Unicentro;

Professor de História e Sociologia;

Pesquisador.

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