OPINIÃO

Entre jabuticabas e gabirobas, uma araucária nunca está só

Foto: Unsplash

20/11/2020 – 07:00:41

Clarita Rickli

Guarapuava escolheu o passado como futuro para o nosso município.

“Se só tem no Brasil e não é jabuticaba, é besteira”. A frase, dita pelo ex-ministro da economia de Geisel, Mario Henrique Simonsen, faz alusão à principal virtude dessa frutinha: a exclusividade. Não há nenhuma sequer parecida, em nenhum lugar no mundo. Porém, nem só de jabuticaba vive a reputação do Brasil, um dos países com maior biodiversidade no mundo! De dimensões continentais, nosso território é composto de biomas como Amazônia, Cerrado, Caatinga, Pantanal e a Mata Atlântica, chamada no sul do país de Mata de Araucárias.

Assim como a árvore, esse importante bioma vem sendo ameaçado e destruído pela ganância humana, restando apenas 12,4% da vegetação original presente no Brasil. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), divulgados pela Agência Brasil em maio deste ano, dão conta de que o desmatamento na Mata Atlântica cresceu 27,2% entre 2018 e 2019, na comparação com o período entre 2017 e 2018. O percentual corresponde a um total de 14.502 hectares. No período anterior foram desmatados 11.399 hectares.

Os números falam por si. A árvore referenciada como orgulho dos paranaenses parece não passar de imagem para “cartão postal”. De volta ao estudo divulgado, o Paraná aparece em terceiro lugar entre os estados que mais desmataram, com 2.767 hectares no mesmo período de 2018-2019 – um aumento de 35% em comparação com o período anterior.

São dados de uma dura realidade ainda mais cruel, pois uma araucária nunca está só. O pinhão, seu fruto sazonal, é produto típico desta nossa floresta, utilizado na culinária local. E apesar de não haver uma organização da cadeia produtiva, é comercializado in natura na época de abundância, gerando trabalho temporário e renda para algumas famílias. E não é só isso. Aonde se vê a floresta de araucária, é possível encontrar uma enorme diversidade de outras espécies da Mata Atlântica. E quanto mais preservada, mais exuberante e mais abundante sua frutificação.

Assim chegamos a elas: as gabirobas!

Não são exclusivas como a jabuticaba, mas parecem com a fruta em tamanho. Também ocorre no cerrado, aonde recebe o nome de guavira. Verde no começo e amarela quando está madura, tem sabor bem ácido, perfume intenso e uma verdadeira bomba de nutrientes – até 20 vezes mais vitamina C do que a laranja, sem contar a vitamina A e os minerais. Todo ano, entre novembro e dezembro, quando começam as chuvas e as gabirobeiras amadurecem todas de uma vez, é um tal de correr para catar as frutas tão frágeis, que pendem em cachos fartos.

Então o que fazer dessa saborosa riqueza natural, que chega anualmente de forma tão abundante e logo encerra seu ciclo? “Comida para porco”, dizem muitos, talvez por jamais conseguir “des-frutar” de todo bem que vem da pequena notável.

Mas a resposta está na própria natureza: é preciso aprender com ela. Tudo tem seu tempo e, no ciclo da vida, cada tempo tem um modo de contribuir com o conjunto de toda a riqueza natural, inclusive com a pessoa humana. E como fazer isso?

Primeiramente, a coletividade. Outra vez repito: uma araucária nunca está só. Ao redor dela se organiza uma enorme diversidade de outras espécies de fauna e flora. Cada qual a seu tempo e medida, todos se alimentam e todos nutrem o ambiente ao redor, é o que ensina a Agroecologia.

Então vamos à organização. Cadeias produtivas, cooperativas, associações, organizam a produção. Poder público e gestores engajados fazem acontecer políticas públicas de apoio, estruturação e incentivo à produção, processamento e comercialização. E por aí vão os diversos caminhos da sustentabilidade, do desenvolvimento local com inclusão produtiva, aonde todos ganham, inclusive nós, consumidores, e as gabirobas.

Entretanto, em Guarapuava, onde essa frutinha é tão abundante, até o momento o que de mais concreto sobre o tema da biodiversidade local foi construído pelo Poder Público é o “Parque das Araucárias”. Talvez mais do que um espaço alusivo ao “símbolo” do estado, seja um lugar de melancolia em que podemos sentar e contemplar o pouco que resta daquilo que mais poderia nos alimentar a todos: as nossas riquezas naturais.

Esta semana o Movimento Slow Food realiza o encontro Terra Madre 2020. Entre a programação virtual, rodas de conversa sobre a Mata de Araucária, debates sobre as “fortalezas do Slow Food”. Criado em 1986, o Slow Food tem como objetivo, entre outros, promover uma produção que valorize o produto, o produtor e o meio ambiente. Assim, reúne experiências práticas de organizações e coletivos que demonstram que é possível homem e natureza conviver e se desenvolver de forma digna e harmoniosa.

Iniciativas tão inspiradoras quanto tantas que existem e resistem na Região Centro do Paraná. Como a experiência do Grupo Yvy Porã, do Núcleo Centro Sul da Rede Ecovida, que envolve comunidades indígenas, agricultores orgânicos/agroecológicos de Guarapuava e região, que discutem rumos de uma produção mais sustentável, voltada ao desenvolvimento local. Os desafios são muitos e começam pela falta de uma política pública local que atenda às especificidades da atividade de base agroecológica.

Quisera nós, que vivemos e defendemos o patrimônio natural e a sociobiodiversidade local, pudéssemos olhar para o futuro e enxergar algo que nos desse esperança em dias melhores. Lamentavelmente, o resultado das eleições municipais indica o futuro construído sobre um passado que todos e todas já conhecemos e vivenciamos. Nada além do que a continuidade de um projeto político para uma Guarapuava apenas de alguns: daqueles que detêm o poder de decidir se as araucárias permanecem em pé ou não. E para aqueles que ainda acreditam que é possível remontar o rumo da história, há um caminho: o diálogo que aponte para novas e concretas perspectivas. Ninguém está só.


por:

Clarita Rickli

Esta coluna é um espaço de partilha. E que o texto dado seja confrontado, refletido, repensado. Sou Clarita Rickli, jornalista, bacharel em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). De perfil profissional voltado à Comunicação Estratégica, vivo atualmente em Guarapuava, no Sítio Agroflorestal Pedacinho do Céu, Distrito do Guairacá e sou jornalista responsável pela Cobé Comunicação. Então vamos [email protected], textando.

Ver mais colunas

LEIA TAMBÉM

Entre jabuticabas e gabirobas, uma araucária nunca está só

20/11/2020 – 07:00:41 Clarita Rickli Guarapuava escolheu o passado como futuro para o nosso município. “Se só tem no...

Além do olhar do cágado tranquilo

18/09/2020 – 08:22:59 Dartagnan da Silva Zanela Há uma historieta sobre São Cura D’Ars que, bem provavelmente, o amigo...

Muito além do gemidão do zap

04/09/2020 – 09:27:58 Dartagnan da Silva Zanela Na semana que findou, numa quinta-feira, próximo do horário do sorteio do...

Uma boa panela de pressão

28/08/2020 – 08:45:34 Dartagnan da Silva Zanela Feijão novo é tudo de bom. Sim, a piazada de prédio faz aquela cara de...