OPINIÃO

Entre mortos e feridos [não salvamos todos]

Foto: Pixabay

07/04/2020 – 07:39:30

O velho ditado português hoje em dia só faz sentido se alteramos a parte final dele.

O número de feridos nessa pandemia que enfrentamos aumenta a cada dia.

Eles são os casos confirmados de Covid-19, mas são também todas as famílias dos doentes, seja porque elas também estão sob suspeita ou porque estão sofrendo. Sofrendo com a dor de ver uma pessoa amada acamada. Sofrendo com a impotência por não poder conseguir ajudar, não conseguir aliviar a aflição.

Esse vírus é tão cruel que até mesmo quando não infecta, prejudica, faz sofrer! Os feridos também são todos aqueles que, mesmo fora dos hospitais, não podem trabalhar e, dia após dia, ficam mais angustiados com a pilha de boletos vencido que só faz é aumentar.

Ferido podemos ficar [ainda mais] qualquer um de nós. Isso pelo simples fato de que praticamente não temos onde ser tratados se ficarmos doentes, de Covid-19 ou de qualquer outra coisa.

Aqui na região de Guarapuava temos apenas, preste bem atenção, apenas 50 leitos de UTI para atender uma população de 450 mil habitantes dos 20 municípios que fazem parte da 5ª Regional de Saúde.

Não é novidade que esses leitos estão sempre todos ocupados e isso desde muito antes do Covid-19.

E agora o que fazer?

Não temos como prever o quanto a situação vai piorar ou melhorar.

Não temos como evitar as consequências atuais da falta de saúde pública na cidade.

Mas, como em todo momento crítico da vida, temos como aprender e melhorar.

Há muito tempo eu, você, todos nós estamos falando o quanto é necessário o Centro de Especialidades, erguido ali entre a Receita Estadual e o Sindicato Rural. Um prédio vistoso que custou R$ 13 milhões, que inaugurado dia 9 de dezembro de 2018 e, até hoje, um ano e meio depois, continua fechado porque o Governo do Estado do Paraná se nega a pagar R$ 750 mil por mês que ajudariam no custeio e os 20 municípios que deveriam custear a outra metade, esmoreceram e até agora nada fizeram.

Da mesma forma a interminável construção do Hospital Regional do Centro-Oeste, cuja previsão de entrega informada no edital original era para o final de 2016 ao custo inicial de 51 milhões. Hoje, quatro anos após, o prédio continua inacabado e estima-se que o custo final será de quase 100 milhões.

Agora me diga, se não vieram os 750 mil reais necessários para o funcionamento do Centro de Especialidade, como virão os mais de 10 milhões mensais necessários para tocar o Hospital Regional?

Esses dois exemplos revelam tristes evidências, além da crítica situação da saúde na região, o descaso político, a irresponsabilidade e a desperdício no uso de dinheiro público.

Em toda a região centro-sul do Paraná, que deveria estar sendo atendida por essas duas unidades de saúde, temos 20 prefeitos, 20 vice-prefeitos, 20 secretários de saúde e as suas respectivas equipes, nas 20 Câmaras de Vereadores são mais de 200 vereadores e mais de 300 assessores e, para terminar, e pelo menos 3 deputados estaduais que podem ter até 63 assessores.

Só nesse pequeno rol dos envolvidos com a saúde pública contabilizamos 626 cargos – agora, lembrando, na mesma região temos apenas 50 leitos de UTI.

Essa é a conta que faz feridos. Essa é a conta que traz mortos.

“Somos esmagados por impostos.”

“Somos governados por políticos ultrapassados e incompetentes.” (João Amoêdo)


por:

João Nieckars

Advogado, economista e professor de direito empresarial

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