OPINIÃO

Interferência no ENEM, revisionismo, amor na bandeira e outras drogas

Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

22/11/2021 – 07:44:45

Luiz Felipe

Ontem (21) foi dia de prova do Exame Nacional do Ensino Médio – ENEM. Pouco mais de três milhões de candidatos realizaram o exame, que no governo Bolsonaro vem sofrendo interferências bruscas e mais do que  antiéticas. Teve de tudo: de questões censuradas pelo próprio presidente – segundo fontes do próprio governo – até a inserção de policiais federais em locais de provas no sudeste do país, segundo denúncia de uma professora, que foi comunicada da substituição pela Cesgranrio.

O que me deixa mais perplexo em todo esse carnaval que tem sido o governo Bolsonaro, é a hipocrisia de quem sempre ladrou contra o movimento estúpido do “Escola Sem Partido”. O primeiro fato é: quem realmente acredita que a escola é capaz de doutrinar alguém, de “convertê-lo” a se filiar no PT ou no PSOL, é porque não conhece a realidade do chão da escola, nunca entrou numa turma de sexto ano. É quase impossível convencê-los a ler um simples texto de duas páginas, quem dirá convencê-los a “virar comunista” (como se isso fosse possível né, amores?!). Mas agora, ao que parece, tudo bem existir uma escola com partido, desde que seja o do governo.

Não satisfeito com tudo o que já tinha feito, Bolsonaro ainda largou mais uma: mudar “Golpe de 1964” para “Revolução de 1964”. Aos colegas historiadores que me leem, vou pedir licença e explicar de um modo mais simples o problema dessa alteração. Para os historiadores Kalina Silva e Maciel Silva, o termo “Revolução” está, muitas vezes, ligado politicamente com o sentido de golpe ou reforma. Foi somente com a Revolução Inglesa no século XVII que a palavra ganhou um significado político e, naquele momento, significava voltar à ordem política anterior, que havia sido alterada por turbulências. É com a Revolução Francesa que surge o significado que conhecemos hoje para o conceito de Revolução: de mudança estrutural, convulsiva e insurrecional.

Para o historiador Florestan Fernandes, o uso da palavra “Revolução” no lugar de “Golpe Militar de 1964”, além de ter um caráter ideológico, oferece pouca resistência e controvérsia, já que revolução é um fenômeno social, político, que promovem mudanças rápidas nas estruturas sociais. A sequência de golpes militares na América Latina, especialmente no Brasil em 1964, estava embasada no que os próprios militares chamaram (falsamente) de contrarrevolução, isto é, o objetivo era impedir uma revolução socialista no Brasil, o que na verdade não estava nem perto de acontecer. O Brasil nunca nem chegou a flertar com o socialismo, quem dirá estar próximo de uma revolução. Mas neste caso, Fernandes destaca que usar a palavra revolução no lugar de golpe é uma forma de escamotear, isto é, fazer desaparecer – sem que ninguém perceba – a realidade histórica. No fim, o golpe de 64 não era contra o socialismo, apenas contra a própria democracia.

Na sexta-feira passada (19), foi comemorado o dia da Bandeira Nacional, uma data importante para a nação, se não fosse o uso político que a bandeira acabou ganhando por parte de apoiadores do Presidente Jair Bolsonaro, o que gerou revolta nos brasileiros em que nada se identificam com o atual presidente e condenam o uso vexatório da bandeira como uma tremenda falta de respeito com o símbolo máximo do nosso país.

A bem da verdade, fato é que as cores da bandeira ganharam uma nova reinterpretação para apagar a ligação com o Império. Originalmente, as cores presentes na bandeira republicana são as mesmas na bandeira do Império (vou pedir para os editores colocarem as duas aqui haha). O verde é alusivo à Casa Real dos Bragança (Dom Pedro I) e o amarelo da Casa de Habsburgo (dona Leopoldina). O círculo azul vem da esfera armilar representada na bandeira imperial. Com a República, as cores ganharam um novo significado, pura balela: o verde representa as nossas florestas, o amarelo a nossa riqueza, o azul os nossos rios e o mar do nosso litoral, enquanto que o branco da faixa seria a paz – KKKKKK (cringe demais; é só ler a outra coluna que vai entender). E após juntar tudo isso, saiu a bandeira nacional republicana que nós temos hoje.

Insatisfeitos com os rumos do país (com razão) e com o ódio que permeia a política, a sociedade e tudo mais, um grupo embasado no positivismo de Comte, o filósofo francês, iniciou um movimento para mudar o lema da bandeira nacional. Inspirados na originalidade nada original de Raimundo Teixeira, o homem que desenhou a bandeira quatro dias depois da Proclamação da República e traduziu as frases de Comte, o lema da bandeira – para esse povo – deveria ser “Amor, Ordem e Progresso”, baseado em “Amor por princípio, Ordem por base e Progresso por fim”.

A alteração de um símbolo nacional em uma país em que – infelizmente – a maioria da população desconhece a origem deste símbolo, me parece um tanto quanto problemática. O país esteve unido por essa bandeira em momentos de glória, como as vitórias de Ayrton Senna, o pentacampeonato de futebol, mas também viu a bandeira ser usada como escudo para grupos e movimentos envolvidos diretamente com os crimes contra homossexuais, indígenas, negros, mulheres, grupos supremacistas que não aceitam a divergência de absolutamente nada. Eu sei (antes que me julguem) que a discussão não pode ser tão rasa assim, mas é uma coluna e não um livro. A questão é: como se resolve esse tipo de coisa? A alteração no lema da bandeira realmente fará com que tenhamos uma nação que dê mais valor ao amor do que ao discurso de ódio contra as minorias? Para a minha pessoa, o buraco é mais embaixo.

O debate ainda está muito centralizado, dentro dos muros da universidade e não rompeu as fronteiras acadêmicas. Muitos dos intelectuais aprenderam a falar e interagir com os seus pares, mas não aprenderam a falar com o morador da favela que acorda 4h30 da madrugada para ir trabalhar. Esse trabalhador não tem tempo e nem interesse em discutir se a linguagem neutra deve ou não ser usada e não tem como julgá-lo…sabe por quê? Porque ao mesmo tempo em que pensamos um país melhor para todos, não pensamos a melhoria na condição de vida dessas pessoas, pensamos na melhoria da educação, mas não pensamos na condição do saneamento básico, na água potável tratada, na possibilidade dessas pessoas possuírem suas casas próprias. Já diziam os Titãs: “a gente não quer só comida”. É preciso ir além da fome do povo, é preciso pensar na profissionalização, na capacitação dessas pessoas, em dar a oportunidade para que tenham a sua independência com dignidade, mas sem a conversa para boi dormir de meritocracia.

Seja como for, esse país precisa tomar o rumo, seja ele qual for, mas que priorize os trabalhadores, os desassistidos, os que estão na linha da miséria, que já estão cansados de correr atrás e nunca ter nada. O meu único medo, é que o rumo que estamos por decidir seja pior do que o atual cenário e a pobreza continue sendo criminalizada cada vez mais. Ademais, só falta jogar a lona por cima para chamar de circo e o último que sair que apague a luz, por favor, porque a energia tá cara demais!


por:

Luiz Felipe de Lima

• Historiador •

Formado pela Universidade Estadual do Centro-Oeste – Unicentro;

Professor de História e Sociologia;

Pesquisador.

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