OPINIÃO

O caminho da reconstrução – Um alerta urgente

Foto: Pixabay

24/09/2021 – 19:03:39

Alexsander Menezes

Há alguns anos tive a oportunidade de ler a obra Alemanha 1945 – do autor Richard Bessel, que faz uma análise do fenômeno da saída daquela nação de um período de trevas para a vanguarda de uma sociedade plural, civilizada e humana.

Poucas obras trazem uma visão tão interessante do fenômeno no qual uma das sociedades mais avançadas da Europa no início do século XX sucumbiu a uma ideologia cujos pilares eram o ódio, mentira, assassinato em massa, perseguição de minorias dentro e fora de suas fronteiras, e após a total devastação ressurgiu literalmente das cinzas renovada e consciente.

Guardadas as devidas proporções, as semelhanças entre a realidade alemã e a brasileira ainda causam espanto, mesmo aos que tem consciência de que os extremistas que cercam Bolsonaro construíram sua visão de mundo na filosofia e na propaganda nazista.

A obra deixa claro que essa transformação só foi possível com a total destruição da pátria alemã tal qual fora idealizada a partir da segunda metade do século XIX e consolidada nas primeiras três décadas do século XX, uma destruição bem mais profunda que aquela causada pelas bombas despejadas sobre a população.

A reconstrução prescindiu a quebra da identidade germânica, estruturada na crença de superioridade racial, orgulho exacerbado, fé cega em lideranças messiânicas e no conceito do direito de conquista e da legitimidade da exploração dos mais fracos pelos mais fortes.

Nem mesmo a derrota na 1ª Guerra Mundial (1914/18) com seu consequente colapso econômico, fome e miséria foram suficientes para quebrar o “espírito alemão”, uma vez que foi habilmente creditada à “inimigos internos” e restringiu-se ao campo material, cenário diferente do que se viu 27 anos depois.

Como deixei claro anteriormente, guardadas as devidas proporções, talvez seja esse o momento histórico que se aproxima, nem pois mesmo as experiências vividas nos anos de chumbo (1964/85), os governos Collor e FHC e Temer não foram suficientes para quebrar a semente da nossa necessidade de autoafirmação sobre a miséria do próximo – compartilhada pela nossa elite, classe média e até mesmo as camadas mais baixas da pirâmide econômica – e nos últimos três anos chegamos a beira de um colapso inédito em nossa história.

O caminho da reconstrução

Enquanto cidadãos e instituições democráticas se ocupam de sobreviver aos ataques das hordas extremistas, combatendo crises que proliferam diariamente, artificialmente criadas e incentivadas por um líder messiânico e seus seguidores fanáticos, relegamos ao segundo plano a necessidade de prepararmos para empreender a grande obra de reconstrução do estado brasileiro.

Negligenciar essa necessidade significa abrir espaço para tentativas como presenciamos no último dia 12/9 de fazer surgir uma “terceira via”, que nada mais é que uma versão requentada das forças antidemocráticas que nos jogaram nos braços da extrema direita.

Tal qual a experiência alemã, a reconstrução só será efetiva, assegurando uma real transformação com a aplicação da justiça pelos crimes cometidos contra as minorias, pelos milhares de mortos por negligência criminosa, devastação ambiental, perseguições, abusos e ataques às instituições.

A aplicação da justiça, dentro dos parâmetros legais, asseguradas as garantias à ampla defesa e contraditório deverá ser paralela à limpeza de instituições, da máquina pública, em uma operação de purga que assegure consciência de que o apoio às políticas criminosas deste e de qualquer governo não se justifica e nem compensam as consequências.

A limpeza da máquina pública só será efetiva se precedida por um trabalho prévio de mapeamento de potenciais lideranças que substituam os milhares de militares e apoiadores ideológicos e oportunistas que serviram de instrumentos para a consolidação das políticas destruidoras do estado autoritário que se instaurou no país.

Resta a dúvida se as lições deixadas pelos quase 600 mil mortos, pelo retorno ao mapa da fome, colapso econômico e os ataques à democracia servirão para “quebrar o espírito” de uma parcela da população eternamente ansiosa por afirmar sua superioridade sobre qualquer um que lhe seja diferente, ainda que totais sejam as semelhanças.

Deixo o alerta aos que marcham rumo a uma vitória que se aproxima a cada dia pela derrocada das forças sinistras que assaltaram o poder: Há um trabalho de reconstrução grandioso a ser feito, mas se essa obra for alicerçada nos pilares de uma estrutura contaminada pelos agentes da destruição, em alguns anos reviveremos o caos, às custas de milhares de vidas destruídas.


por:

Alexsander Menezes

Administrador pela Universidade Católica de Brasília e especialista em Gestão de Pessoas e Liderança pela Universidade Cândido Mendes do RJ. Empregado dos Correios há 20 anos, atualmente é membro da Comissão de Relações Internacionais da Federação Nacional dos Trabalhadores dos Correios.

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