OPINIÃO

O que falta em Guarapuava?

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19/08/2021 – 11:44:15

João Nieckars

Algum tempo atrás eu fiz uma pesquisa informal querendo saber “o que falta em Guarapuava?”. A participação foi bem significativa. Li muita coisa, desde “falta calor” – o que eu concordo, porque não gosto nada do inverno e dessa ventania de rabiar galinha no terreiro, até “falta político honesto” – assertiva com a qual é difícil discordar –, mas quero compartilhar o que o penso sobre um outro item bem recorrente nas respostas: emprego e renda.

Um número bem grande dos participantes, quase 65% deles, disseram que faltam melhores empregos em nossa cidade. A carência de postos de trabalho bem pagos, que gerem boa renda, são, segunda a opinião da nossa gente, o maior problema de Guarapuava.

Como resolver isso?

Olha, vocês sabem quem eu sou economista e gosto de analisar dados, porque eles asseguram respostas fundamentadas as nossas dúvidas. Vejam só…

Guarapuava é a nona cidade mais populosa do Paraná, hoje tem perto de 183 mil habitantes, ficando atrás de Curitiba (quase 2 milhões), Londrina, (575 mil), Maringá (403 mil), Ponta Grossa (355 mil), Cascavel (332 mil), São José dos Pinhais (329 mil), Foz do Iguaçu (258 mil) e Colombo (246 mil) – ai vem Guarapuava na 9ª posição.

Grandes nós somos, mas a renda por aqui não é muito boa.

Se, de um lado, temos a nona maior população do Paraná, do outro, temos a 32ª renda per capita do Estado e, pior, só aparecemos na 137ª posição em relação ao PIB per capita.

A baixa produção e renda local não é algo novo, mas histórico. Em nossa cidade, segundo dados do IBGE, o PIB por habitante passou de R$ 7 mil reais em 2000 para R$ 33 mil reais hoje em dia.

Nas outras grandes cidades do interior do Estado, que há 20 anos apresentavam números muito parecidos com os de Guarapuava, hoje a situação é, via de regra, bem melhor. Londrina aumentou seu PIB per capital de R$ 7 mil em 2000 para R$ 40 mil; Maringá foi de R$ 9 mil para R$ 45 mil; Ponta Grossa de R$ 7 mil para R$ 43 mil. O município de São José dos Pinhais deu um salto de R$ 7 mil para inacreditáveis R$ 75 mil e Foz do Iguaçu foi de R$ 8 mil para R$ 60 mil.

Das grandes cidades do Paraná, as que estão na lanterna no crescimento do PIB per capita são Colombo, que foi de R$ 6 mil em 2000 para R$ 22 mil em 2020, e Guarapuava, que, nos vinte anos, subiu de R$ 7 mil para R$ 33 mil. Tamanho não é documento e algumas cidades menores mostraram isso. Pato Branco, nesses 20 anos, elevou o PIB per capita de R$ 6 mil para R$ 47 mil (e tem só 83 mil habitantes). Toledo foi de R$ 6 mil para R$ 45 mil (isso com apenas 143 mil habitantes).

Agora a pergunta que vale ouro: por quê?

O que deu certo na economia daquelas cidades que apresentaram um incremento substancial? O que eles fazem por lá? Podemos fazer igual? Bem, os fatores motivacionais que eu analisei foram variados, mas um deles me prendeu a atenção e talvez você concorde comigo.

Existe um índice do Ipardes chamado de “contribuição por setor de produção na formação da renda”. Ele mede a participação de cada um dos setores da economia (agropecuária, serviços, indústria e administração pública) na formação da renda dentro do município.

Em todas aquelas cidades onde o crescimento do PIB e a renda são maiores, a indústria contribui em percentuais que vão de 24% a 35%. Nas cidades onde o crescimento foi menor e a renda são mais baixos, no caso, Guarapuava e Colombo, a participação industrial cai para 17% a 18%.

Esses dados mostram que a baixa industrialização é fator extremamente prejudicial ao crescimento econômico de Guarapuava e que mantém a renda local em níveis precários.

Todos os setores da economia devem ser cuidados e estimulados, claro, mas é inegável que os processos industriais incentivam o desenvolvimento da tecnologia, demandam serviços melhores, geram mais riqueza ao agregar valor, e mobilizam mais mão-de-obra qualificada, portanto, melhor paga. Pra você ter uma ideia, a indústria, em média, paga o dobro do salário médio recebido pelos trabalhadores rurais e o triplo da média recebida pelos trabalhadores do setor de serviços convencionais.

Portanto, aí está uma resposta a nossa pergunta inicial: industrialização. Precisamos que, em Guarapuava, seja estabelecida uma política econômica de organização e de fomento a indústria e quem pode fazer esse é o poder público.

Produzir a maior e melhor quantidade de soja por hectare do país é um orgulho guarapuavano, agora precisamos que ela vire óleo, suco, aqui. Da mesma forma a cevada – produzimos aqui 50% da cevada do Brasil e a de melhor qualidade, mas a indústria cervejeira tem pouco ou nada de apoio e articulação – vide a micro cervejaria colaborativa do lado do Madero: a prefeitura gastou mais de 200 mil lá e ela nunca funcionou. Equipamentos caros estão lá apodrecendo.

Guarapuava tem tudo para desenvolver uma a nova identidade – a cidade do malte. Assim como o vinho mudou a história da serra gaúcha, o malte pode mudar a nossa, mas para isso é preciso parceria entre empresários e setor público. Empresários bons nós temos. Prefeitura competente não.

Essa conexão, produto e indústria, se bem estabelecida, gera qualidade no mercado, aumento do emprego e melhora nos salários e, por consequência, o desenvolvimento.

É essa Guarapuava que eu quero.


por:

João Nieckars

Advogado, economista e professor de direito empresarial

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