OPINIÃO

O rádio, o Brasil e a história

Foto: Freepik

07/09/2022 – 07:18:30

André Luís A. Silva

A primeira transmissão oficial de rádio no Brasil foi feita pelo presidente Epitácio Pessoa, no Rio de Janeiro, no dia 07 de setembro de 1922, em comemoração ao Centenário da Independência do Brasil. Com muito ruído e quase inaudível, por alguns minutos o presidente da República discursou e, em seguida, a ópera O Guarani também pode ser ouvida por autofalantes espalhados pela cidade.

Nos Estados Unidos e na Europa, o rádio já tinha conquistado seu espaço desde o início do século XX. Por aqui, o governo brasileiro não mostrou interesse por este mais novo e moderno veículo de comunicação, tanto que após as comemorações da independência daquele ano, o governo brasileiro não levou adiante o projeto da construção de redes de rádio no país. Só então, por meio do antropólogo Edgard Roquette-Pinto e dos intelectuais da Academia Brasileira de Ciências, sete meses depois, foi fundada a primeira rádio do Brasil, no Rio de Janeiro, chamada Rádio Sociedade do Rio de Janeiro. Roquette-Pinto era um intelectual brasileiro, conhecia vários países, nos quais o rádio já havia ganhado um certo grau de desenvolvimento e relevância na esfera comunicacional. Por isso, ele acreditava no potencial do rádio como um veículo que pudesse chegar aos 65% de analfabetos existentes no Brasil daquela época, principalmente, para levar cultura e educação ao nosso povo. Roquette-Pinto estava certo, em terras brasileiras o rádio também obteve sucesso e, até o fim da década de 1920, já haviam sido criadas 30 emissoras de rádio em diversos estados do Brasil. Em 1936, a Rádio Sociedade foi doada ao Governo Federal, e passou a se chamar Rádio MEC, desde então, a nomenclatura atual.

O que chama a atenção, neste primeiro momento, é que o Governo Federal teve o espírito modernista em realizar a primeira transmissão oficial de rádio no Brasil, mas logo em seguida o próprio desiste de levar adiante o projeto, e não percebe a capacidade e a potencialidade do rádio em fazer uma reviravolta no modo em que a sociedade se comunicaria. Ainda, por consequência, permite que esta ferramenta fique na mão de idealistas, como Roquette-Pinto, por exemplo.

Vale ressaltar que, durante a década de 1920, o rádio se desenvolveu, sendo uma atividade amadora no Brasil, sua base era o jornalismo, mas suas notícias eram copiadas dos jornais impressos e havia muito pouco entretenimento. Nesta época, suas transmissões eram extremamente limitadas, pois a programação do rádio tinha duração de poucas horas, não era sistemática e regular, assim como conhecemos hoje. O público alvo era a elite econômica brasileira, visto que, em seus primórdios, um aparelho de rádio era um produto caro e, por este motivo, ficava praticamente restrito a esta classe.

No ano de 1932, o governo provisório de Getúlio Vargas regulamenta o funcionamento das dezenas de emissoras de rádio pelo Brasil e, além disso, autoriza a veiculação de publicidade. A partir de então, as rádios podem fazer anúncios publicitários (inclusive do próprio governo) e passam a receber verbas públicas e privadas. Assim, profissionalizam-se as carreiras radiofônicas e o rádio ganha uma nova roupagem, pois, antes, suas vozes chegavam apenas nas residências da elite nacional, agora, passa a conquistar os ouvintes de todas as classes pelo país. O rádio se popularizou rápido, ao mesmo tempo em que unificava o Brasil através de suas ondas radiofônicas. Também, é nesta década que o rádio passou a ser visto como um grande mobilizador popular, ou seja, um veículo de massa. Percebendo este movimento, o governo federal vai criar programas para sua autopromoção. Neste sentido, o noticiário radiofônico Programa Nacional é criado em 1935, pelo governo de Getúlio Vargas. Sua transmissão era obrigatória em todas os rádios do país, de segunda a sexta-feira, das 19h às 22h. Em 1938, o Programa Nacional teve seu nome renomeado para A Hora do Brasil, que assim foi chamado até 1962, quando o noticiário radiofônico foi novamente renomeado, passando a se chamar A Voz do Brasil, nomenclatura atual, produzido pela Empresa Brasil de Comunicações (EBC).

Conforme ressalta o historiador Marco Antonio Villa, a censura implantada impedia a livre circulação da informação e das ideias no Brasil. De acordo com a Constituição de 1934, a censura prévia seria adotada para garantir a paz, a ordem e a segurança pública. Todavia, a censura também era uma forma de proteger e preservar o governo autoritário de Getúlio Vargas, que utilizou exacerbadamente o rádio para construir seu perfil populista, de um líder forte e condutor da nação. De fato, sua estratégia era enfraquecer as oligarquias locais e regionais, principalmente em São Paulo e Minas Gerais, que possuíam grande parte do controle da política desde o início do século XX. Com efeito, o objetivo de Getúlio Vargas era unificar o Brasil e centralizar o poder político em suas mãos, criando, assim, uma identidade política nacional com base nos valores e tradições brasileiras. Logo, o rádio era o meio mais adequado para que a voz de Getúlio Vargas chegasse em todos os cantos do país. O maior exemplo disso foram as transmissões radiofônicas de A Hora do Brasil, que divulgava diariamente as realizações de seu governo, ao mesmo tempo que estabelecia um culto pessoal a Getúlio Vargas.

Ademais, é importante mencionar o valioso papel do rádio no que diz respeito ao desenvolvimento da cultura brasileira. O destaque desta época é a Rádio Nacional Rio de Janeiro, criada em 1936, que foi uma das grandes responsáveis por alavancar a música brasileira pelo país através da participação de artistas populares da década de 1930, como Carmen Miranda, por exemplo. A festa do Carnaval tornou-se ainda mais popular devido a ajuda da Rádio Nacional, que transmitia sistematicamente suas marchinhas. Além disso, também foi a rádio pioneira em transmissão de jogos de futebol e radionovela no país. Seu sucesso de audiência foi tão grande que, em poucos anos, já possuía alcance em quase todas as regiões do Brasil, tornando-se uma rádio de dimensão nacional.

Inspiradas no sucesso da Rádio Nacional, a partir de então, na década de 1940, emergiram rádios particulares por todo o país, principalmente no eixo Rio-São Paulo. Dava-se início ao que ficaria conhecida como a década de ouro do rádio no Brasil. Com o fim da censura em 1945, o rádio se tornou um propagador de notícia instantânea e, ao mesmo tempo, o principal veículo de entretenimento. Foi nesta década e, por meio do rádio, que grandes cantores, artistas e apresentadores surgiram, como por exemplo, Fernanda Montenegro, Cauby Peixoto, Emilinha Borba, Sílvio Santos, Lima Duarte, Laura Cardoso, Hebe Camargo, Raul Gil, entre outros que, futuramente, ingressaram na televisão.

Na década de 1950, a expressividade do rádio ficou por conta das suas transmissões dos jogos de futebol ao vivo, das festas de Carnaval e dos principais eventos políticos no Brasil e no mundo. Os novos programas musicais e de prestação de serviço uniam a população de um país de dimensões continentais, e de pessoas que não se conheciam e não se comunicavam entre si. Outro destaque da época é a criação do transistor, que ajudou a diminuir o tamanho do aparelho de rádio, fazendo com que ele se tornasse um dispositivo portátil, permitindo ser ouvido em qualquer lugar. Ainda assim, de acordo com o historiador Reinaldo Tavares, é no final desta mesma década que a rádio começou a perder sua posição de destaque na comunicação, visto que a chegada da televisão no Brasil, em 1950, torna-se a mais nova e moderna novidade comunicacional, que agora reúne não apenas áudio, mas, também, imagens.

De fato, nas décadas seguintes o rádio foi perdendo espaço para a televisão, na medida em que ela avançava para se tornar o veículo de comunicação mais popular no Brasil. Mas, ao contrário do que se previa, embora a queda nas receitas publicitárias e a falência de muitas rádios, o rádio não foi morto pela televisão. Todos os desafios impostos foram vencidos e, ainda, foi por meio deles que o rádio se revigorou e se reposicionou no campo da comunicação, até mesmo porque a televisão e o rádio não são rivais, como muitos ainda pensam, mas, são plataformas que vivem em um estado de confluência, complementam-se.

Em tempos de comunicação na era digital, o futuro do rádio está na internet, com ênfase nas redes sociais. Com efeito, na última década a internet tem sido a grande aliada do rádio, pois foi através dela que se aumentou formidavelmente a qualidade das transmissões, o marketing, a publicidade, o alcance e a participação dos ouvintes. Também, a possibilidade de escutar rádios de outras regiões do Brasil. A internet permite que uma emissora de rádio seja acessada de qualquer lugar e, inclusive, por diversos outros dispositivos. Permite, também, que qualquer pessoa produza seu conteúdo e lance na rede, nos chamados Podcasts, considerado pela UNESCO como uma reinvenção do rádio no século XXI.

No mesmo dia em que o Brasil comemora seus 200 anos de Independência, o rádio comemora os 100 anos de sua primeira transmissão oficial. E, de fato, a história do Brasil e do rádio se entrelaçam na contemporaneidade. Foi o primeiro veículo de comunicação a integrar o país inteiro, conectando diariamente as diferentes regiões do Brasil. O rádio ainda é uma das formas mais democráticas de comunicação no mundo, visto que está presente em todas as residências. Ele leva, de maneira gratuita, notícias, educação, cultura, entretenimento e cria todo um imaginário de lugares, pessoas e situações que muitos não teriam a oportunidade de conhecer se não fosse através de suas transmissões radiofônicas. Seu centenário de transmissões nos mostram o quanto o rádio é parte da nossa história e, também, uma voz viva na atualidade.


por:

André Luís A. Silva

Historiador, professor e doutorando do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual do Oeste do Paraná

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