OPINIÃO

Os Correios, a economia, vacas loucas, mitologia e ruminantes bípedes

Foto: Pixabay

10/09/2021 – 09:26:39

Alexsander Menezes

A maturidade faz acreditar que em privilégios que só existem em nossa imaginação, e graças à bondade daqueles que nos demandam alguma paciência, continuamos nos sentindo mais sábios deslocados que de fato somos.

Ultimamente tenho abusado desta pseudo-sabedoria para repetir minha cantinela de sempre: *“Não existe esse tal de estado mínimo, e esse tal livre-mercado é tão folclórico quanto nosso Saci-pererê!”.

Felizmente nossa exótica conjuntura política e econômica tem me dado inúmeras oportunidades de exercer meu sagrado direito de reafirmar essa  crenças, e um exemplo disso é ter me deparado notícia da identificação de dois casos de doença da vaca louca no MT e em MG.

Rapidamente, o MAPA – Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, antevendo o desastre para o único setor da nossa economia que ainda respira sem ajuda de aparelhos classificou os casos como “isolados, atípicos e insignificantes”.

A doença da Vaca Louca tornou-se conhecida na década de 1990 quando surgiram inúmeros casos no Reino Unido, colapsando a pecuária do país, cujo consumo de carne foi proibido e mais de 4 milhões de animais foram sacrificados.

Os estudos decorrentes deram como causa o uso de proteína animal (restos de ossos, gordura) na preparação da alimentação, um típico casos de canibalismo, involuntário por parte dos quadrúpedes ruminantes, criminoso por parte dos ruminantes bípedes que infestam o Ministério da Economia e da Agricultura.

Permito-me, tal qual Cassandra, aquela  da mitologia grega, cuja antevisão das desgraças da Guerra de Tróia foram ignoradas, anunciar que os casos identificados estão longe de serem “casos isolados”.

Diferente da personagem da mitologia, cujas visões eram produtos do mundo sobrenatural, com o qual felizmente não tenho nenhuma proximidade, minha previsão se fundamenta em fatos bastante concretos, em especial nos aumentos absurdos da cotação dos insumos para a produção de ração animal adequada.

Era perfeitamente previsível que a pratica de forçar o canibalismo fosse adotada pelos produtores voltasse a ocorrer em algum momento, e somado ao desmonte dos órgãos de fiscalização sem concursos, às influências do agronegócio no governo, às hordas ideológicas e aos “Chicago boys” da economia, temos o cenário perfeito para uma tragédia que proporções mitológicas.

A crise da pecuária que já bate a nossa porta soma-se a outras já presentes e algumas em gestação, dentre as quais o eminente apagão logístico-postal decorrente da insistência na privatização dos Correios, a tábua de salvação dos frustrados cowboys do neoliberalismo ideológico adotados por Bolsonaro.

Um caminho para a prevenção de tragédias como estas, seria convencer os troianos surdos do senado e da sociedade a dar ouvidos aos sofredores como eu do Complexo de Cassandra, tão maltratados por desafinarem do consagrado “coro dos contentes”, afinal ansiamos secretamente uma promoção de loucos para oráculos credenciados.


por:

Alexsander Menezes

Administrador  pela Universidade Católica de Brasília e especialista em Gestão de Pessoas e Liderança pela Universidade Cândido Mendes do RJ. Empregado dos Correios há 19 anos, atualmente é Secretário de Formação e Estudos Socioeconômicos do Sindicato dos Trabalhadores dos Correios do Paraná.

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