OPINIÃO

Os impactos das nossas escolhas – uma abordagem ética e bem-humorada

Foto: Pixabay

10/11/2021 – 08:05:30

Alexsander Menezes

Poucas vezes somos instigados a pensar de fato sobre a ética, mesmo que a todo o momento sejamos forçados a inconscientemente fazer escolhas éticas praticas independente de serem mais ou menos complexas.

Mesmo com grande a quantidade de estudos sobre ética que escrutinam as obras dos principais filósofos que se debruçaram sobre o tema nos últimos 2.400 anos, me chamou atenção uma reflexão proposta de forma despretensiosa e bem humorada de uma série exibida por um canal de streaming: The Good Place, em tradução literal “O bom lugar”

Em um dos seus capítulos, um personagem discorre sobre a valoração ética de um gesto simples – oferecer um buquê de flores – através de um sistema de pontos invariável em dois diferentes momentos históricos:

Em 1534, um certo “Doug” colhe flores e entrega um buquê para sua avó, sendo “pontuado” positivamente por sua atitude, porém, em 2009, outro “Doug”, igualmente presenteia sua avó com um mesmo buquê, só que nesse caso, perde pontos por seu gesto de carinho; o que mudou no transcurso desses séculos, considerando conforme dito que o sistema de valoração permaneceu o mesmo.

Em uma sua análise, o personagem explica o “Doug” do século XXI comprou suas flores através de um celular produzido por trabalhadores explorados em regime de semiescravidão, as flores eram cultivadas com o uso de pesticidas e colhidas por imigrantes ilegais, transportadas por avião, o que causou uma elevada emissão de carbono, e mesmo o valor que gastou se transformou em lucro nas mãos de um empresário racista, misógino e assediador.

De fato, ao considerarmos o conceito de ética nos deparamos com a constatação de que ele pode se modificar sob influências diversas e aspectos culturais, econômicos, educacionais, religiosos e políticos dentre os mais perceptíveis, todos com o potencial de amoldar interpretações e aplicações nas relações humanas.

Não poderia ser diferente, afinal, nossa percepção individual do agir ético se adapta aquilo que é aceito pelo coletivo em que estamos inseridos, e se ampliarmos nossa percepção veremos que são profundas e cada vez mais rápidas as mudanças e suas transformações nesse contexto.

Salvo em momentos de ruptura traumática, mudanças nos conceitos morais e éticos ocorriam lentamente e por vezes atravessavam gerações, mas partir das duas últimas décadas do século XX, passaram a ocorrer em uma velocidade cada vez maior sem a ocorrência das tais rupturas bruscas como uma onda de protestos, revoluções, colapsos econômicos, etc.

Pode-se dizer até que as nossas escolhas éticas até a década final do século XX eram em sua maioria determinadas pela transmissão e aceitação de “valores próximos”, e por proximidade entenda-se a familiar, social, educacional, religioso ou geográfico.

Mas a partir da segunda metade dos anos 1990, os “desaceleradores” que impediam mudanças foram perdendo sua eficácia tornando nossos grupos sociais cada vez mais permeáveis às influências de valores morais “externos”, com consequentes mudanças no agir ético individual.

O envelhecimento destes desaceleradores é uma consequência da sua incapacidade de fazer frente à democratização dos meios de comunicação que facilitaram o contato de grupos sociais e indivíduos, e nos expõe diariamente a uma gama de informações cada vez maior, muitas das quais com potencial de provocar reflexões sobre os padrões morais e éticos dos nossos grupos sociais de nós mesmos.

Escolhas éticas são em sua essência um exercício penoso, pois invariavelmente nos confrontam com a obrigação de escolher nosso prazer individual ou nos submetermos aos preceitos morais que nos permitem viver em sociedade. Somente por esse aspecto, trata-se desde sempre de um tema complexo, mas conforme ilustrado de forma despretensiosa e bem humorada na série nesse nosso tempo de hiperconectividade o exercício da ética atingiu um npivel tal de complexidade que uma desatenção pode representar um risco.

Os grandes filósofos e pensadores que construíram os principais conceitos éticos ao longo de 2400 anos naturalmente não poderiam ter previsto a infinitude das variáveis que envolvem as escolhas éticas do nosso tempo. Talvez melhor que assim o seja, afinal, se pensarmos sobre a possibilidade da existência de um “sistema de pontos” como o idealizado por Michael Schur na série de TV, nenhum deles iria para o “Bom lugar”.

Ah! Fica a dica para conferir essa série: THE BOOK OF DOUGS. In: THE good place. Criação de Michael Schur. Direção de Michael Schur et al. Estados Unidos. NBC. 2018. 22 min, son., color. Temporada 3, episódio 10. Série exibida pela Netflix. Disponível em https://www.netflix.com/br/title/80113701 .


por:

Alexsander Menezes

Administrador  pela Universidade Católica de Brasília e especialista em Gestão de Pessoas e Liderança pela Universidade Cândido Mendes do RJ. Empregado dos Correios há 19 anos, atualmente é Secretário de Formação e Estudos Socioeconômicos do Sindicato dos Trabalhadores dos Correios do Paraná.

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