OPINIÃO

Por que lemos revistas?

Foto: Pixabay

14/01/2022 – 08:16:54

André Luís A. Silva

Em janeiro de 1812, em Salvador, na Bahia, surgia a primeira revista brasileira intitulada As Variedades ou Ensaios de Literatura, sua proposta era publicar mensalmente discursos sobre costumes, virtudes morais e sociais, resumos de viagens e alguns pequenos contos da literatura portuguesa. Possuía cara e jeito de livro, e não tinha relação alguma com as revistas que conhecemos na atualidade. Se existisse até os dias de hoje, estaria completando exatos 210 anos, porém, a publicação de Variedades foi extremamente breve, circulou por apenas três meses.

Mas o fato é que Variedades abriu as portas para o nicho do jornalismo de revista no Brasil. Nas décadas seguintes, muitas outras revistas surgiram em diferentes regiões do país, focando em segmentos específicos, como por exemplo, literatura, ciência médica, costumes e arte. Nessa época, todas as revistas possuíam um ponto em comum, suas publicações tinham vida curta, duravam no máximo um ou dois anos, isso poque o mercado de revistas no Brasil do século XIX não contava com assinantes e recursos publicitários, assim como possuem hoje. Outros empecilhos eram o custo da produção e circulação do periódico, o baixo poder aquisitivo da população e o alto nível de analfabetismo na época. Todas essas questões somadas freavam o desenvolvimento, não só das revistas, mas de toda a imprensa escrita no Brasil.

Foi somente com o início da República que o jornalismo de revista começou a se profissionalizar. A cidade do Rio de Janeiro (capital do Brasil na época), logo se transformou em um grande parque gráfico, e dali começaram a ser produzidas várias revistas de diversos gêneros. Para atingir públicos maiores, as revistas passaram a publicar textos curtos e com linguagem mais acessível, seções de humor, ilustrações, caricaturas e técnicas de impressão que chamavam e prendiam a atenção dos leitores. A profissionalização da imprensa escrita surfou na onda da nascente industrialização nacional, e, assim, passou a ser entendida como um negócio, um meio de ganhar dinheiro, algo que juntava, ao mesmo tempo, técnica e capital.

Assim, foi durante o século XX que surgiram os grandes fenômenos editoriais, revistas que alcançaram tiragem na casa dos milhões. Este é o caso de O Cruzeiro, periódico fundado por Assis Chateaubriand, em 1928, e que circulou no Brasil até a década de 1970. O sucesso da revista se deu por conta de estabelecer uma nova linguagem na imprensa nacional, por meio de grandes reportagens, e também por sua ênfase ao fotojornalismo. Anos mais tarde, em 1952, surge Manchete, similarmente considerada uma revista ilustrada, que valorizava ainda mais aspectos gráficos e fotográficos. Outra característica do periódico eram suas seções dedicadas aos cronistas da época. Fundada por Adolfo Bloch, a revista Manchete sobreviveu até a década de 1990, quando acompanhou a decadência e a falência do grupo Bloch. Em 1968, foi a vez da revista Veja emergir nas bancas, mas é possível dizer que seu sucesso só chegou na década de 1980, quando se tornou a revista mais vendida e lida no Brasil, posição que ocupa até hoje, segundo o Instituto Verificador de Comunicação. Criada pelos jornalistas Roberto Civita e Mino Carta, Veja se destacou pelo jornalismo investigativo que revelou grandes escândalos políticos, bem como, por suas entrevistas marcantes com personagens nacionais e internacionais.

Ainda assim, o breve resumo sobre o jornalismo de revista no Brasil não responde nossa inquietação que dá origem ao título do texto. Afinal, por que lemos revistas?               

Segundo a jornalista Marília Scalzo, as primeiras revistas surgiram na Alemanha, no final do século XVII, focadas em trazer em suas páginas teologia e poemas. Elas se pareciam muito com os jornais da época, principalmente em seu formato. Porém, as revistas nasceram inovando e aos poucos foram adquirindo particularidades. As revistas próximas do formato como nós conhecemos hoje só iriam surgir no final do século XVIII, na Inglaterra, e logo se espalhariam por toda a Europa. Com efeito, é a partir desse momento que elas começam a se desvincular dos jornais e assumem uma caraterística pedagógica, ou seja, sua finalidade era de complementar a educação, aprofundar o conhecimento sobre diversos assuntos, aguçar a curiosidade e auxiliar o leitor na interpretação dos acontecimentos. Portanto, as revistas se posicionaram ao longo do tempo entre os livros, complexos, com profundas análises, linguagem filosófica/acadêmica, e os jornais, voltados para a política, sem grande aprofundamento e preocupado com o imediatismo do fato.

Para a historiadora Tania Regina de Luca, a principal característica das revistas é justamente sua função pedagógica, que pode influenciar no processo de constituição dos indivíduos, pois ensinam, aconselham, propõem e indicam condutas. Vale lembrar que a grande maioria das revistas que circulam no Brasil tem periodicidade semanal ou mensal, tempo necessário para escrever matérias mais completas, amplas e com auxílio de especialistas da área. Outra característica que a historiadora elenca é de que o jornalismo de revista é específico para públicos segmentados, possuem cuidados com seu acabamento, linguagem de tom coloquial, de alguém próximo, que aconselha, ampara, aplaca angústias, resolve dúvidas, sugere, fazendo às vezes o papel de uma amiga e companheira à qual sempre se pode recorrer. De fato, essas características tornam as revistas atraentes, prazerosas e empáticas, diferente do jornal impresso convencional, de periodicidade diária, publicado em material espesso e áspero, preocupados com o fato derradeiro.

Diferente do leitor do jornal convencional, o leitor de revistas tem sentimento pelo periódico, as revistas são queridas, fáceis de carregar, objetos duráveis, colecionáveis. Existe um certo carinho com as revistas, talvez pelo fato de possuírem uma qualidade impecável, ótimo design gráfico e por desfrutarem de um excelente acabamento. Cada seção dentro das revistas é pensada e escrita minuciosamente para estabelecer identificações, passarem a sensação para o leitor de que ele pertence a um determinado grupo. Deste modo, as revistas entram no espaço privado, na intimidade, na casa do leitor. As revistas dirigem-se para um grupo homogêneo. Elas colocam um foco muito maior no leitor, falam com ele diretamente, justamente porque conhecem muito bem quem é seu público alvo. Tratam-no por “você”, mostram confiança no leitor para que ele também possa confiar na revista. Assim, as revistas se apresentam para seu público como manuais, guias, como alguém que passa conselhos e os instrui. As revistas são um ponto de encontro entre editor e leitor, é por suas páginas que se estabelecem contatos e identificações. Talvez, estas sejam as principais características que justifiquem o sucesso das revistas.

É importante ressaltar que as revistas não podem ser concebidas apenas como veículo de comunicação, antes de tudo, são empresas, meios de negócio, marcas, prestadoras de um conjunto de serviços que, ao mesmo tempo, mescla jornalismo e entretenimento. Outra questão importante e que não podemos esquecer, é sua alta carga de subjetivação. Isto é, as revistas interferem no nosso modo de pensar, agir e sentir. Sua forma de jornalismo é um modelo que convoca os leitores a interagirem no meio social, a participarem do mundo, a tomar posição e vivenciar a vida de uma forma dinâmica. Portanto, a questão não é somente noticiar, mas, transformar e moldar os sujeitos-leitores, criar pacotes identitários, mapear caminhos, se apresentar para os indivíduos como um manual de autoajuda, um guia político, social, econômico e cultural, emitindo receituários e saberes. Todavia, isso não significa que as revistas sejam grandes vilões na sociedade, afinal, constituímo-nos enquanto sujeitos interagindo com nossa família, com o local de trabalho, com o círculo de amizade, com a igreja, com a política, escola, universidade, etc. Os lugares e os espaços de subjetivação são vários e as revistas são apenas mais um deles.

As revistas já foram muito mais populares do que hoje em dia, seu ápice no Brasil foi nas décadas de 1980 e 1990. Era por elas e através delas que os amantes de telenovelas ficavam informados sobre os próximos capítulos da trama, sobre a tendência do mercado automobilístico, as análises sobre seu time do coração, as últimas descobertas científicas, as fofocas, moda, investimentos, dietas alimentares, etc. Era comum a circulação de revistas dentro de escolas e universidades, inclusive, os alunos se preparavam para os vestibulares e demais concursos através da leitura de revistas. Eram outros tempos! O fato é que, na última década, o jornalismo de revista perdeu muito da sua influência sobre os indivíduos-sociedade. A popularização da internet no Brasil atrapalhou os planos editoriais e mergulhou o setor em uma enorme crise. Muitas revistas fecharam suas portas, algumas deixaram de circular fisicamente e agora atuam somente no meio digital, outras ainda insistem em frequentar as bancas e o velho modelo de assinaturas, porém, em uma tiragem modesta. Gerenciar uma revista é um processo trabalhoso, caro, e que já não promove os grandes lucros do século XX. É difícil prenunciar as próximas décadas e responder se as revistas estão no caminho de sua extinção. Possivelmente continuarão existindo, assim como os jornais convencionais não acabaram quando chegou o rádio no início da década de 1920, assim como o rádio não deixou de existir com a chegada da televisão no Brasil em 1950 e, assim como a televisão não acabou com o advento da internet e sua popularização no século XXI. É muito provável que as revistas migrem de vez para a plataforma digital e lá se reinventem, assim como já fizeram inúmeras vezes ao longo do tempo.


por:

André Luís A. Silva

Historiador, professor e doutorando do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual do Oeste do Paraná

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