OPINIÃO

Por que seu dinheiro não rende no mercado e de quem é a culpa?

Foto: Freepik

04/07/2022 – 07:17:27

Luiz Felipe

Se você, assim como eu e outros milhões de brasileiros, vai ao mercado para fazer compras semanais ou uma vez ao fim do mês para aquela famosa compra geral, a compra do mês, está levando um susto atrás do outro. Semana passada resolvi ir ao supermercado que um dia já teve a fama de mais barato da cidade e a minha reação, assim como a de outras pessoas que lá estavam, foi a mesma: Meu Deus!

Em maio de 1995, o valor do salário mínimo era de R$ 100,00 e a inflação acumulada no país beirava os 22%. Naquela época, a cédula de 100 reais tinha o valor de 100 reais. Em junho de 2022, a inflação acumulada chegou aos 12,04%. De acordo com o matemático José Dutra Vieira Sobrinho, a inflação entre 1994 e 2022 fez o poder de compra do real desabar em mais de 86%, o que significa que a sua nota de 100 não vale mais 100 reais, mas tem o poder de compra de R$ 13,43. É isso mesmo, a sua nota de 100 reais vale R$ 13,43, enquanto que a nota de R$ 2,00 por exemplo, equivale a um mísero quarto de real, ou seja, 25 centavos.

Hoje o salário mínimo é pelo menos dez vezes maior do que em 1995, o valor é de R$ 1.212,00. A nova LDO (para 2023) fixa um aumento para R$ 1.294,00 em 2023, o que ainda não resolve o problema para os 38% da população que não recebe mais do que um salário mínimo. Para esses, a falta de uma recomposição adequada, acompanhando os índices de inflação, faz com que seu poder de compra diminua ainda mais e esse é o principal vilão para que você pense duas vezes nos corredores do mercado onde vai todo mês.

A nível de curiosidade, o litro de leite em um dos mercados de Guarapuava, que já foi considerado o mais barato da cidade, aquele da torre gigante, está na casa de R$ 6,49, o que significa uma correção de 12,66% no valor do litro do leite, que em 2021, no mesmo período, era R$ 1,05 mais barato neste mesmo mercado. O óleo de soja, outro item essencial na lista do brasileiro, passou dos R$ 7,29 em fevereiro para R$ 9,89 em abril. A farinha de trigo chegou ao absurdo de R$ 22 a embalagem de 5kg. O número 1 na lista dos brasileiros, o arroz parboilizado, foi o que menos apresentou altas no preço, embora ainda esteja a um valor bem elevado, na casa dos R$ 16,00.

O número dois na lista, o feijão preto, apresentou uma elevação de R$ 1,15 na maioria dos supermercados da cidade, enquanto que o feijão do tipo branco saltou dos R$ 5,34 para R$ 9,88 em apenas um mês de diferença, no mesmo local. Na mesma esteira, o gás de cozinha vem trazendo forte prejuízo ao bolso dos brasileiros e na maioria das revendas de Guarapuava, é difícil achar um botijão de 13kg por menos de 120 reais. A gasolina apresenta-se com o preço médio de R$ 6,00 enquanto que o óleo diesel tem média de R$ 7,00.

Mas aí a primeira pergunta que surge é: quem é o culpado por tudo isso? É o governo federal, os estados, o clima, a guerra na Ucrânia, o preço do dólar, a cotação do barril do petróleo? Não é uma pergunta simples para responder e não existe apenas um culpado, é uma soma de fatores que acabam contribuindo para gerar instabilidade no bolso dos mais pobres e acabam enriquecendo os que já são muito ricos. O primeiro item a ser analisado é o preço do barril do petróleo, que em maio de 2022 valia cerca de US$ 120 (dólares), o que dá aproximadamente R$ 639,90. Esse valor elevado faz com que a nossa gasolina fique mais cara, o nosso diesel e por consequência óbvia o nosso gás de cozinha. Mas Luiz, se nós temos uma estatal, somos autossuficientes em petróleo, por que o preço está tão alto? Pois bem, tudo isso tem a ver com a nossa política de preços instaurada na Petrobrás pelo então presidente vampirão Michel Temer (MDB). Para simplificar a coisa, embora tenhamos extração de petróleo no país e a produção da gasolina, uma parte do refino é feita no exterior e a chamada PPI – a política de Paridade de Preço Internacional é o que regula esse preço no retorno do combustível ao país e o preço de venda nas refinarias em solo nacional, o que resulta em um preço absurdo nas bombas, isto é, para o consumidor final. Neste caso, o nosso ganho é em reais, mas acabamos comprando o combustível em dólares, uma vez que a moeda americana é a mais forte no planeta e é usada para a base de câmbio e negócios. Atualmente, cada dólar americano equivale a $ 5,33 reais brasileiros. A Argentina, 4º maior comprador da gasolina brasileira, teve uma alta de quase 10% do preço, o que não impediu brasileiros no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná de cruzarem a fronteira e abastecerem nos postos Hermanos. Em março, a gasolina custava R$ 3,10 nas terras de La Albiceleste.

Outro fator para entender o rolo feito dentro da Petrobrás e a política internacional da empresa que beneficia acionistas estrangeiros, e desce o chicote no lombo do povo, é a falta de ação do governo federal. Sendo a Petrobrás uma estatal, o governo brasileiro ainda é seu maior acionista, com um total de 36,6% do capital da empresa e nesse recebeu mais de 8 bilhões de reais dos lucros da estatal. Sendo o seu maior acionista, o governo tem autonomia legal para mexer na política de preços da estatal. É óbvio que, devido às falcatruas existentes dentro da empresa durante os governos FHC, Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro, o risco da empresa teve de ser levado em conta e uma vez alterada a política de preços durante o governo Temer, não é tão fácil alterá-la de novo, embora seja possível. Há uma série de fatores que devem ser levados em conta para essa nova alteração e um deles é o risco de queda das ações da empresa, o que resulta em prejuízo ao governo brasileiro e por consequência aos brasileiros de um modo geral, pois todos pagamos impostos.

No campo dos alimentos, três elementos são os responsáveis direto pelas altas nos preços: o clima; dólar elevado e soma-se a este último o aumento de oferta e demanda. As commodities agrícolas (o milho, açúcar, carne, café, trigo, laranja) são cotadas em dólar, então sempre que o dólar sofre uma alta a tendência é que o preço em real também suba para haver compensação. E com o dólar em alta, aumenta também a venda desses produtos para o exterior, o que faz com que a reserva disponível no mercado doméstico, isto é aqui, no Brasil fique menor. Com a escassez de produtos no mercado interno, a oferta e demanda tendem a subir cada vez mais e quanto maior a procura por um produto, maior será o seu preço. Essa explicação pode ser vista em prática com o preço da carne bovina e aves como o frango, por exemplo, que tiveram uma enorme alta em seus preços e castigaram o cardápio diário do brasileiro, forçando-o a abandonar carnes de primeira qualidade e recorrendo a refugos do mercado. O clima também tem sua parcela de culpa nessa história: as secas históricas no Sudeste e no Centro-Oeste colaboraram para que o preço dos grãos subisse em demasia.

E você que leu até aqui se pergunta: como isso pode ser revertido. Pois bem, a primeira saída é uma política adotada pelo governo federal que vise controlar a inflação e recupere o ritmo da política de preços em moeda nacional para a Petrobrás (apenas para começar). O investimento em infraestrutura também ajuda muito nesse momento, principalmente porque a infraestrutura do Brasil demanda de ações imediatas para ser recuperada, o que aquece a economia com a geração de empregos diretos e indiretos. Mas nada adianta a geração de empregos se o salário dos trabalhadores ainda continuar a sofrer perdas atrás de perdas, por isso que o controle da inflação é essencial.

Em princípio, o controle pode ser feito por parte do governo, mas demanda de uma política chamada de aperto fiscal, que resulta em gastos públicos mais baixos, impostos mais elevados e juros mais altos. A curto prazo, essas medidas ajudam a conter a demanda por bens e serviços – e uma demanda mais baixa para oferta no curto prazo faz com que o ritmo do aumento de preços seja menor. A longo prazo, o problema da inflação é resultado direto da má administração do governo com suas contas, o que ocorre em alta neste momento com o governo Bolsonaro. Para recompor o índice de inflação dentro da sua normalidade, sem afetar aos mais pobres, é necessário que o país deixe de recorrer à solução fiscal errônea de se financiar com emissão de moeda, pois é o excesso de emissão de moeda que faz com que o dinheiro perca seu valor de compra e a inflação fique cada vez mais alta. Sem aumentar impostos e castigar a população, a primeira contenção é o corte de gastos e em um caso mais extremista, congelamento de preços de bens e serviços.

Para os que foram jovens nas décadas de 1970 e 1980, lembram o quanto o país sofria com a alta inflação e a desvalorização da moeda nacional. Em 1986, durante o Plano Cruzado, os preços de bens e serviços foram tabelados pelo governo federal. A ideia era de que as empresas não aumentassem os preços para além daqueles pré-estabelecidos por Brasília e embora fosse bem-intencionada, fracassou de cabo a rabo. A questão é bem simples aqui: não adianta atacar somente a alta de preços e deixar a origem dela (questão fiscal) passeando livre e solta no mercado.

A curto prazo, a estabilização do preço do dólar – que vem quebrando as pernas do governo e dos brasileiros de modo geral – é um princípio para apagar esse incêndio infernal. A distribuição de renda também é fundamental para o combate à pobreza nesse momento, embora muitos economistas não concordem essa política. Mas no caso do dólar, para sintetizar a questão, é muito simples de entender, tudo está atrelado com a reserva de dólares que o país tem. Quanto maior a circulação de dólar no Brasil, mais barato ele fica e assim a economia se fortalece, pois essa é a régua para medir a solidez de um mercado interno quando comparado ao índice dos Estados Unidos, o dono da bola, ou do dólar, neste caso. Se o Brasil compra muito mais produtos estrangeiros do que vende, isso significa que há uma fuga em massa de dólares do país. Lembra da oferta e demanda? Quanto mais dólar sai do Brasil, mais escassa fica a circulação da moeda aqui e isso faz com que ela suba aos incríveis e assustadores R$ 5,33 centavos que vale hoje.

Vou te contar outra coisa que você provavelmente não tinha conhecimento: sabe aquela comprinha no AliExpress ou na Shopee e que vem direto lá da China? Você sabia que isso pode impactar o mercado brasileiro de forma negativa? Se todos os brasileiros que fazem compras no exterior via internet (pobres como eu e você não viajam para o exterior) pensam que isso não vai impactar, saibam que estão redondamente enganados. Quanto mais compramos do exterior, do relógio ao abajur de mesa no AliExpress, mais dólares saem do país do que entram, o que gera instabilidade no preço da moeda. Taxar esses produtos – a curto prazo – ajuda bastante, mas não resolve o problema. Sabe o que ajudaria muito nesse momento? Começar a cobrar o calote que os bancos e grandes empresários dão no governo brasileiro, ou melhor, no povo todos os dias. Já melhora bastante.

Para finalizar: o grande vilão por toda essa alta de preços em todos os produtos e serviços que consumimos todos os dias têm vários culpados: a guerra na Ucrânia, o clima, a alta no dólar, o preço dos combustíveis e claro, o governo federal. Mas não adianta tapar o sol com a peneira, o estrago tanto a nível nacional quanto mundial já está se arrastando há tempos e a pandemia de covid-19 jogou água no chopp de muita gente no quesito economia. É bem verdade que talvez estivéssemos melhor com outro governo, porém as dificuldades ainda seriam as mesmas diante do cenário internacional. Mas a postura do líder de um país também influencia bastante: não alimentar um dos lados em uma guerra também é ajudar seu país.

 


por:

Luiz Felipe de Lima

• Historiador •

Formado pela Universidade Estadual do Centro-Oeste – Unicentro;

Professor de História e Sociologia;

Pesquisador.

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