OPINIÃO

Por que tantos instruídos votaram em um patético bufão que levou o país ao abismo?

Assista essa coluna

12/08/2021 – 15:43:42

João Nieckars

“Em primeiro lugar, tinham perdido a fé no sistema político. A jovem democracia não trouxera os benefícios que muitos esperavam. Muitos sentiam raiva das elites tradicionais, cujas políticas tinham causado crise econômica e corrupção. Buscava-se um novo rosto. Um anti-político promoveria mudanças de verdade. Muitos dos eleitores desse “novo nome” até ficaram incomodados com seu radicalismo, mas os partidos estabelecidos não pareciam oferecer boas alternativas. Então…

Em segundo lugar, ele sabia como usar a mídia para seus propósitos. Contrastando o discurso burocrático da maioria dos outros políticos, ele usava um linguajar simples, espalhava fake news, e os jornais adoravam sugerir que muito do que ele dizia era absurdo. Ele era politicamente incorreto de propósito, o que o tornava mais autêntico aos olhos dos eleitores. 

Em terceiro lugar, muitos sentiram que seu país sofria com uma crise moral, e ele prometeu uma restauração. Pessoas religiosas, sobretudo, ficaram horrorizadas com os costumes culturais progressistas que surgiram, ou com as mulheres que se tornavam cada vez mais independentes  e com o fato de que a comunidade LGBT ganhou visibilidade. Os conservadores sonhavam com restabelecer a antiga ordem e os conselheiros dele, claro, eram todos homens heterossexuais brancos.

Em quarto lugar, apesar dele fazer declarações ultrajantes – como a de que gays deveriam ser mortos -, muitos pensavam que ele só queria chocar as pessoas. Muitos tinham amigos gays ou negros votaram nele, confiantes de que ele nunca implementaria suas promessas. Simplista, inexperiente e muitas vezes tão esdrúxulo, que até mesmo seus concorrentes riam dele, ele poderia ser controlado por conselheiros mais experientes. Afinal, ele precisava de partidos tradicionais para governar.

Em quinto, ele ofereceu soluções simplistas que, à primeira vista, faziam sentido para todos. O problema do crime, argumentava, poderia ser resolvido aplicando a pena de morte e aumentando as sentenças de prisão. Problemas econômicos, segundo ele, eram causados por atores externos e conspiradores comunistas. Os da esquerda eram o bode expiatório favorito.

Doze anos depois, com seis milhões de judeus exterminados e mais de 50 milhões de pessoas mortas na Segunda Guerra Mundial, muitos alemães que votaram em nele disseram a si mesmos que não tinham ideia de que ele traria tanta miséria ao mundo”.

É.

Eu não estava falando de Jair Messias Bolsonaro. Eu falava de Adolf Hitler, através de um texto do jornalista alemão OLIVER STUENKEL escrito mais de três anos atrás, antes da eleição do atual presidente.

Um então eleitor de Hitler disse ao jornalista “Se soubesse que ele mataria pessoas ou invadiria outros países, eu nunca teria votado nele”. “Mas como você pode dizer isso, considerando que Hitler falou publicamente de enforcar criminosos durante a campanha?”, perguntou o jornalista – “Eu achava que ele era pouco mais que um palhaço, um trapaceiro”, respondeu o senhor cujo irmão morreu na guerra.

“De fato, justamente quando era mais necessário defender a democracia, os alemães caíram na tentação fácil de um demagogo patético que fornecia uma falsa sensação de segurança e muito poucas propostas concretas de como lidar com os problemas da Alemanha em 1932 – exatamente como Bolsonaro.

Nenhum dele pode ser considerado um gênio. Não passam de charlatões oportunistas que identificaram e exploraram profunda tristeza e insegurança na sociedade.

Não chegaram ao poder porque todos os eleitores deles eram nazistas ou anti-semitas, ou homofóbicas, ou misóginas, ou racistas, ou ignorantes, mas porque muitas pessoas razoáveis fizeram e fazem vista grossa.

O mal se estabelece na vida cotidiana porque as pessoas são incapazes ou não tem vontade de reconhecê-lo ou tem vergonha de admiti-lo, pois isso seria admitir o próprio e anunciado erro.

Na Alemanha do século XX, quando muitos perceberem o que a maquinaria fascista estava fazendo, ele já não podia mais ser contido. Era tarde demais. E tudo isso somente aconteceu porque essa maioria achava que Hitler não era um palhaço e não seria capaz de realizar as maldades que anunciava.”

Bolsonaro também é um palhaço. Cuidado com os palhaços.


por:

João Nieckars

Advogado, economista e professor de direito empresarial

Ver mais colunas

LEIA TAMBÉM

O caminho da reconstrução – Um alerta urgente

24/09/2021 – 19:03:39 Alexsander Menezes Há alguns anos tive a oportunidade de ler a obra Alemanha 1945 – do autor...

Paraná não cobrará R$ 17 bi em impostos em 2022

Assista esta coluna 23/09/2021 – 14:44:36 João Nieckars Veja lá algo bem interessante de que eu tenho certeza que muitos...

Teatro canhestro e a estratégia de protagonismo internacional de Bolsonaro

22/09/2021 – 17:12:33 Alexsander Menezes A sucessão de acontecimentos vexaminosos que marcaram a participação da...

Vendo o bonde passar…

Assista esta coluna 16/09/2021 – 14:11:07 João Nieckars Já ouviu muito essa expressão, não é? Pois então, para...