OPINIÃO

Quando o assunto é direito das mulheres, a hipocrisia rola solta

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21/10/2021 – 13:06:12

João Nieckars

Duas Moções de Repúdio foram votadas na terça-feira na Câmara de Guarapuava e ambas tratavam sobre políticas públicas direcionadas às mulheres:

A que repudiava o veto do presidente Jair Bolsonaro ao PL do absorvente, que previa a distribuição gratuita de absorventes femininos para estudantes de baixa renda e pessoas em situação de rua no país, foi REJEITADA, isso porque 9 vereadores homens, claro, acham que mulher pobre não precisa de absorvente.

A outra moção que repudiava a ADPF 442 que tramita no STF pedindo a declaração de inconstitucionalidade do crime de aborto até o terceiro mês e essa foi aprovada por 15 vereadores, todos homens.

Ou seja, quando o tema é algo bem simples e sem dúvida absolutamente necessário como fornecer absorventes higiênicos as mulheres pobres, os vereadores homens não se metem.

Agora, esse mesmo vereador, homem, acha que é apto para criticar uma ação judicial que está sendo discutidas pelas maiores mentes do Brasil.

Pare pra pensar. Não é muito difícil de entender que todas as mulheres, em certa idade, precisam utilizar absorventes higiênicos e que nem todas elas têm recursos para isso. Quando uma mulher menstruada não consegue usar absorvente ela fica exposta a doenças e a humilhação, de modo que é uma questão de dignidade e de saúde pública. A isso os vereadores homens, disseram não.

Doutro lado, quando o tema é absolutamente complexo e controverso, como a interrupção da gravidez, que envolve matéria sobre a qual nenhum, repito, nenhum dos vereadores tem a menor condição cientifica e jurídica de opinar em cinco minutos, como fizeram ontem, aí os mesmos homens se metem a dar palpites totalmente bizarros.  

Gente bonita, as quatro vereadoras mulheres foram as únicas na sessão que tiveram o bom senso, a dignidade e a amplitude intelectual para votar corretamente as moções, dizendo SIM a necessidade de distribuição de absorventes as mulheres pobres e NÃO ao oportunismo, a picaretagem política que tentou reduzir o debate de um assunto tão importante quanto a gravidez e o aborto.

Eu sou religioso, provavelmente como muitos de vocês, e jamais gostaria que uma mulher ou mesmo uma família tivesse que experimentar o aborto, mas o mundo é cruel e mais complexo do que as nossas pequenas vontades pessoais e independente do que eu e você achamos correto, coisas ruins acontecem e o direito precisa indicar saídas.

Aborto é um tema que desperta paixões e divide opiniões, mas são pouquíssimas as críticas que não usam argumentos hipócritas ou que não utilizam este debate apenas com fins politiqueiros, sem saber nada sobre o assunto – e isso nós vimos ontem no comportamento de muitos vereadores homens.

Se eu te perguntar agora se “Você é contra ou a favor do aborto?” certamente a esmagadora maioria dirá que é contra. Mas deixa o preconceito e o populismo de lado pra eu te contar uma coisa.

Foram feitas várias pesquisas no Brasil sobre esse tema, aborto, e a maioria da população brasileira se disse contraria ao aborto e defende punição para as “mulheres” que o realizam.

Todavia, na mesma pesquisa foi perguntado se o entrevistado conhece alguém que teve que passar por um aborto e quando a resposta a essa pergunta era SIM, aí a opinião começava a mudar. Quando os entrevistados conheciam mulheres que tiveram que abortar, aí eles diziam que elas não mereciam ser tratadas como criminosas nem ir presas.

Entendeu? Veja, quando a gente conhece uma mulher que passa por uma gravidez indesejada, porque foram abandonadas, porque foram abusadas, porque o pai forçou o aborto, etc, a gente consegue enxergar as múltiplas nuances da situação e entender que não se trata de uma questão de sim ou não. Que mulher que aborta não é o demônio e que, certamente, as mulheres que passam por isso sofrem muito mais do que eu e você, que estamos aqui falando sem vivência.

Vamos aos fatos e sem discursinhos bobos como os que vimos dos vereadores homens ontem na Câmara. No Brasil uma em cada cinco mulheres de até 40 anos já terminou voluntariamente uma gestação. Essas mulheres são, em sua maioria, religiosas e casadas.

Por ser ilegal, os dados são imprecisos, mas estima-se que até um milhão de abortos voluntários são realizados anualmente no Brasil e que, no mundo inteiro, uma em cada quatro gestações uma termina em aborto provocado e que 73% das mulheres que abortam são casadas .

Agora, se todas a mulheres tiveram a ajuda de um homem para engravidar, não é, e a se a esmagadora maioria das mulheres que aborta é casada ou está em um relacionamento, por que raios nós continuamos imputando o dito “crime de aborto” apenas as mulheres e deixamos os homens ilesos?

Percebe que muito dessa discussão não tem nada a ver com vida ou morte, mas sim com hipocrisia e machismo?

Será, então, que 1 milhão que praticam o abordo no Brasil todo ano devem ser colocadas na cadeia? Elas são autoras ou são, muitas e muitas das vezes, as vítimas? Somos um país de assassinas ou devemos aceitar que a questão é mais complexa do que parece à primeira vista?

A criminalização NUNCA diminuiu o número de abortos em lugar nenhum no mundo, assim como o concubinato, que era crime até pouco tempo, nunca diminuiu os casos de traição. Alguém que quer ou precisa abortar não será impedida pela proibição. Alguma coisa no Brasil é efetivamente impedida por uma simples proibição? Nada.

Abortos, por mais terríveis que sejam, acontecem, e quem os comete não são mulheres desalmadas, demonizadas. É uma amiga, uma irmã, sua mãe, sua tia, sua prima e se queremos falar conscientemente sobre aborto é melhor a gente entender, primeiro, o que essas mulheres passam ou não se meter no assunto.

É um direito dos grupos religiosos ser contra o aborto, assim eu sou contra o aborto, assim como qualquer pessoa pode, individualmente, ter suas convicções. O que não é direito, nem meu e nem de ninguém, é transformar essas convicções pessoais e religiosas em políticas de Estado.

Hipocrisia não resolve o nosso problema.

Hipocrisia serve para politicozinhos mesquinhos e oportunistas sensibilizarem você para tirar o teu voto.

Cuidado com a Hipocrisia.


por:

João Nieckars

Advogado, economista e professor de direito empresarial

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