OPINIÃO

Retrofuturismo, paradoxo temporal e políticas educacionais – Parte 1

Arthur Radebaugh – Push-Button Education (Parte de “Closer than we think”, 1958-62)

Para esse escrito, relacionarei três conteúdos distintos, mas que se interpenetram. Por ser um texto longo, dividirei em duas partes. A primeira, contém os dois primeiros aspectos, nomeadamente, o retrofuturismo e o paradoxo temporal.

O primeiro, é um estilo de arte nascido entre os anos 50 e 60, principalmente pelo rápido avanço técnico-científico após a Segunda Guerra Mundial. O retrofuturismo, portanto, é um olhar para o futuro, a partir do passado. Recorrente na ficção científica, mistura robótica com máquinas a vapor (steampunk), carros voadores com tecnologia de combustíveis fósseis (dieselpunk), ou desenvolvimento de tecnologias utópicas com energia elétrica (teslapunk).

A representação acima, é de um ilustrador estadunidense que, de certa forma, “antecipa” a educação à distância. As mesas são constituídas de telas e botões para interagir com as atividades propostas pelo professor. A premissa é de que o aumento populacional, junto a diminuição do número de professores, faz com que essa sala de aula seja planejada com máxima eficiência e eficácia.

Arthur Radebaugh – Sem título (Parte de “Closer than we think”, 1958-62)

Seguindo a mesma lógica da eficiência e eficácia, essa outra ilustração vai além: ao invés de colocar os alunos no mesmo espaço, faz com que a educação mediada pela técnica vá até a residência do aluno. Antecedendo a criação da internet e dos computadores pessoais, essa tecnologia era baseada na televisão. A única forma de interação aluno-professor, nesse caso, era através do apertar de botões e de uma espécie de touchscreen, que nesse caso é um caderno eletrônico que reage a uma caneta especial.

Esse modelo estético, que se alimenta muito na pop art, traz consigo uma análise da ideologia capitalista, impressa nas suas linhas, com teor de inocência e boa vontade. A cultura massificada, agora convertida em desenho, imita o ritmo fabril e o expande para todas as áreas possíveis. Radebaugh imaginaria que entre uma atividade ou outra, uma mensagem dos patrocinadores apareceria?

Salvador Dali – A persistência da memória (1931).

Dando continuidade, falarei sobre paradoxo temporal. Nas obras cinematográficas e literárias, é o que acontece quando um viajante do tempo, ao mudar aspectos do seu passado (ou geral), causa um loop, ou retroalimenta a causa da sua viagem do tempo, fazendo com que o evento futuro tenha uma relação de causalidade com o evento do passado.

A pergunta clássica “o que você diria para o seu eu de 10 anos atrás, se pudesse viajar no tempo?”, é um bom exemplo. Se você enviasse informações, como o resultado da loteria, implica que mesmo sabendo dos números, você não exclui o fato de precisar fazer a viagem no tempo para dar a informação. Ou seja, o seu eu do passado sabe do resultado, mas acontecimentos diversos e não controláveis indicam que você não ganhou, fazendo com que seu eu do presente tenha que viajar, repetidas vezes, sem nunca concluir o objetivo: ganhar na loteria. Poderíamos problematizar mais esse ponto, mas já adianto – não é meu objetivo.

Falando em outros tempos, assim é o tempo na obra de Dali: a persistência da memória é uma representação onírica da percepção temporal do autor. A fluidez não é literal, mas é a diferença entre uma hora esperando em uma fila, ou uma hora fazendo uma atividade prazerosa. A eternidade está no sono dos justos, mas não no único objeto banal na obra. O relógio inteiro, cheio de formigas, está virado. O tempo fabril, mecânico, é ignorado, em favor da fluidez.

Esse tempo contraria a lógica. No plano onírico, a viagem temporal seria possível sem paradoxos, mas na realidade – dialética, complexa e síntese de múltiplas determinações – estamos sujeitos à racionalidade.

Vladimir Kush – Pros and Cons (Prós e Contras).

O desfecho, portanto, será no próximo texto. Como as políticas educacionais estão inseridas no loop temporal e uma tendência retrofuturista?


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