OPINIÃO

Teatro canhestro e a estratégia de protagonismo internacional de Bolsonaro

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

22/09/2021 – 17:12:33

Alexsander Menezes

A sucessão de acontecimentos vexaminosos que marcaram a participação da delegação brasileira na Assembleia Geral da ONU e o discurso de Bolsonaro cuja repercussão internacional invariavelmente foi pontuada com adjetivos como “constrangedor, mentiroso, vexaminoso”, está muito além destes predicados.

Seria inocente creditar as atitudes de Bolsonaro e integrantes de sua comitiva nos últimos dias e seu “discurso de coreto” à sua incapacidade moral e intelectual ou a necessária ausência de sanidade mental para ocupar o cargo que ocupa.

Pelo contrário, devemos encarar os fatos como uma estratégia elaborada para por em prática um projeto político internacional em construção.

A busca de protagonismo em um nicho ideológico

O protagonismo assumido pela direita radical no cenário mundial na segunda metade da última década chegou ao seu limite com a derrota de Trump e sua tentativa fracassada de golpe na mais sólida, longeva e consolidada democracia mundial, um espetáculo triste que fechou as cortinas para o protagonismo da extrema direita em países de maior influência econômica e política no cenário mundial.

Em que pese o fim do triste espetáculo para a maioria da plateia, nas coxias as movimentações são intensas pela disputa dos papeis que agradem a um público pequeno, porém barulhento, ávido por um ator que represente seus baixos instintos no palco mundial.

Jair Bolsonaro percebeu esse anseio e a ausência de atores com um mínimo de capacidade , relevância ou até coragem para candidatarem-se a papeis de interpretações canhestras, e ciente de uma derrota eleitoral cada vez mais próxima ou da possibilidade de impeachment, e da certeza de sucessivas condenações pelos seus crimes variados e continuados que lhe aguardam no futuro próximo.

Um novo palco, a mesma claque

O vergonhoso cair das cortinas no palco internacional protagonizado pelas cenas quase escatológicas da trupe brasileira foi precedida por uma fala que aparentemente sem nexo ou sentido, deixou uma mensagem clara: Em breve estaremos em um novo palco, com o mesmo roteiro.

O novo teatro, nas periferias obscuras do radicalismo mundial, avizinha-se com “estabelecimentos” cuja reputação nivela-se ao de sua trupe, Polônia, Ucrânia, Turquia, dentre outros, com a diferença da vantagem proporcionada pelo potencial econômico e estratégico brasileiro.
O fato é que Bolsonaro livrou-se de qualquer amarra institucional que ainda lhe refreava os impulsos autoritários, o fracassado golpe do dia 07/09, as sucessivas derrotas nos poderes legislativo e judiciário, e as investigações que chegam cada vez mais próximas de seu circulo familiar, se por um lado lhe causam aflição, por outro serviram para libertá-lo de qualquer resquício de ética ou moralidade que remotamente possuísse.


por:

Alexsander Menezes

Administrador pela Universidade Católica de Brasília e especialista em Gestão de Pessoas e Liderança pela Universidade Cândido Mendes do RJ. Empregado dos Correios há 20 anos, atualmente é membro da Comissão de Relações Internacionais da Federação Nacional dos Trabalhadores dos Correios.

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