OPINIÃO

Tenho esperança

Compreender porque personalidades tóxicas, com decisões equivocadas, irresponsáveis e incendiárias, conseguem se sobrepor em ambientes até então saudáveis e, ‘ainda’ ter o aval de pessoas ‘aparentemente’ decentes, é sem dúvida, um grande desafio para a inteligência artificial, em notável expansão no momento em que escrevo.

Reatividade, agressividade, linchamento moral tem sido ‘escandalosamente’ naturalizados por pessoas que até bem pouco tempo “dialogavam” como seres humanos comuns em ambientes pouco corroídos.

Não faz tempo que, por mais que as aspirações e interpretações de cada um fossem diferentes do outro, em caráter de discordância, havia ainda assim uma cartilagem, um filtro [‘um talvez’ ou ‘um quem sabe’].  Agora não, o choque é direto. Seja de direita ou esquerda, seja de grupos racistas, extremistas ou de outra patologia qualquer, há pouquíssimo espaço para pessoas razoáveis, que cultuam a boa diplomacia e a boa arbitragem como fundo comum.

Impressiona-me que a agressividade parte de pessoas de nosso entorno que ainda ontem eram ‘alienados em uma inércia terrível’, mas até então inofensivos. Agora, militarizados e com distintivo de guardiães do país, sentenciam e executam como a maior naturalidade. A imposição gritante destes novos personagens, instrumentos de políticos psicopatas, fez com que a empatia civilizatória deixasse de existir.

Tem sido difícil conviver com pessoas que, de polos tão distintos, mas ao mesmo tempo tão próximos, sejam petralhas ou bolsominions, diariamente se julguem sem culpa alguma.

Como sinto falta do tempo em que era comum ler e ouvir que nossa melhor esperança para o futuro era pensar a humanidade como uma família e estranhos como quase irmãos. Afinal, mesmo que não tenhamos empatia por estranhos e diferentes, suas vidas têm ou não têm o mesmo valor que a vida daqueles que amamos?

Confesso que a apreensão está em alerta 24 horas por dia, sobretudo porque não está descartado o fato de que pode chegar o momento em que a capacidade de pensar com autonomia ou simplesmente pensar ‘corre risco’, podendo esta prática ser naturalizada por pessoas ‘aparentemente normais’ em um ambiente para lá de tóxico.

Começo a acreditar que o avesso tem vencido o sentido normal quando percebo que as virtudes mais festejadas em personalidades públicas residem exatamente na tendência à manipulação dos outros, na disposição em mentir e enganar para alcançar seus objetivos, na falta de remorso e sensibilidade e em levantar hipóteses irracionais e ilógicas gerando o caos em nome da hipocrisia da moralidade e dos bons costumes. A coisa está tão desbussolada que tenho visto pessoas, antes comuns, depositarem confiança em psicopatas de plantão que não medem esforços para fazer um buraco e enterrar todos. Ora, não posso aceitar que seres menos confiáveis para assumir o poder serão justamente os que mais provavelmente vencerão. É muito dolorido.

Assim, tenho claro que a tecnologia não é, em si mesma, responsável pelos males a ela atribuídos, mas também percebo que a tese de Hannah Arendt está mais viva que nunca [a banalização do mal] : o mal sem motivos, sem raízes, sem explicações. Infelizmente há hoje a ressurreição do mal sem culpa, que o praticante do mal banal é o ser humano comum, aquele que não sente culpa e não se responsabiliza pelo que faz, que não reflete, que não pensa, que não sabe quais serão as consequências para um amanhã que se aproxima. Foi por conta disto que outro dia postei a frase do filósofo da linguagem Noam Chomsky: “a população geral não sabe o que está acontecendo e nem mesmo sabe que não sabe”.

Tenho esperança que as pessoas, em todo e qualquer ambiente, mas principalmente nas redes sociais, possam ainda usar o “quem sabe ou o talvez fosse melhor”. Ainda não desisti de ser representado por pessoas ponderadas, conscientes de si e colaborativas. Como seria um sistema que promovesse essas pessoas?


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