OPINIÃO

Vendo o bonde passar…

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16/09/2021 – 14:11:07

João Nieckars

Já ouviu muito essa expressão, não é? Pois então, para exemplificar muito bem esse ditado, hoje eu começo a nossa conversa lendo a matéria de um jornal. Preste bem atenção:

“Indústrias projetam R$ 7 bi em investimentos.

Na última década, mais de 40 grandes empresas se instalaram ou ampliaram a sua operação na cidade, que conta com o maior parque industrial do [interior] do Paraná – e há pelo menos outros treze grandes investimentos industriais anunciados ou já em andamento no município.

As áreas são diversas: produção de alimentos, bebidas, caminhões, ferramentas elétricas, componentes automotivos, papelão, móveis, entre outros – e, juntos, eles ultrapassam a marca de R$ 7 bilhões”

Depois desse anúncio de encher os olhos de qualquer leitor, você já deve ter percebido que eu não estou falando de Guarapuava, né? A cidade é Ponta Grossa que, aliás, terá uma nova maltaria que vai deixar Guarapuava para trás (mais uma vez). Isso porque após a finalização do investimento de 3 bilhões de reais, a planta será a maior maltaria da América Latina, desbancando a nossa Agrária Malte (nome novo da antiga Agromalte).

O empreendimento conta com a participação da própria Agrária, aqui de Guarapuava e vai gerar mais de 3 mil empregos. Embora a Agrária, a “chefona do grupo”, seja aqui de Guarapuava, a escolha de Ponta Grossa ocorreu, segundo o presidente da cooperativa, porque “A questão logística pesou bastante na viabilização do projeto, e Ponta Grossa é privilegiada nesse quesito”.

Deu para entender, né? Rodovias, ferrovias, aeroporto (funcionando, né? Fechado como o nosso, não vale). Mais que isso, disponibilidade de recursos humanos capacitados, acesso a insumos, a tecnologia. Tudo isso para facilitar produção, diminuir os custos e entregar o melhor produto pro consumidor o mais rápido possível. Ponta Grossa possibilita isso. Guarapuava, não.

Aí você pode pensar assim: ah, mas é que Ponta Grossa está do lado de Curitiba. Meu querido(a), aí na sua casa deve ter uma variedade grande de produtos feitos a 4 mil quilômetros daqui, na Zona Franca de Manaus. A própria cerveja que nós consumimos não é produzida apenas aqui no Paraná, mas vem de São Paulo, de Santa Catarina e até da Bahia. Então, não, Ponta Grossa não está melhor do que Guarapuava só porque é perto da capital, tanto que Cascavel, Toledo, Beltrão, Pato Branco, Umuarama, por exemplo, são muito mais industrializadas que Guarapuava e estão mais longe que nós de Curitiba. Então, deixa esse mito de pra lá.

O fato de Ponta Grossa e todas essas cidades que eu mencionei terem se industrializado mais do que Guarapuava tem muito mais a ver com planejamento. É como o crescimento de uma empresa ou o seu próprio crescimento: é necessário saber pra onde se quer ir e o que é preciso para chegar lá.

Agora se pergunte, onde Guarapuava quer chegar?

Nós somos a terra do lobo bravo, que não tem lobo! A terra que bate recordes na produção de soja, mas que não produz um litro sequer de óleo ou alimentos. A terra da cevada, porque aqui plantamos 50% da cevada brasileira, mas não geramos condições para que esse dom, para que essa benção, se transforme em riquezas aqui e beneficie a nossa gente.

A prefeitura não pode fazer tudo, claro, mas dele deva fazer muito, organizando, estruturando, fomentando, planejando […] e aqui nunca fizeram nada disso, tanto que nunca deu bola pro potencial que a nossa cidade tem de se tornar um grande centro cervejeiro e agora estamos novamente vendo o bonde passar direito para Ponta Grossa e isso me deixa muito frustrado. E você deve sentir-se do mesmo jeito.

Para ter uma ideia da displicência dos nossos gestores municipais, a única coisa que a Prefeitura fez para “incentivar” a produção cervejeira aqui foi comprar, em 2018, por quase 200 mil reais, equipamentos para uma instalação de cervejaria coletiva, ali naquelas casinhas abandonadas perto do Madero. Esses equipamentos estão lá dentro até hoje, sucateando, e nunca foram usados.

Essa mentalidade desidiosa, relaxada, preguiçosa dos políticos locais, somada a uma falta absoluta de profissionais competentes dentro do primeiro escalão da administração pública local é que tem atrasado, ano após ano, o desenvolvimento de Guarapuava. Por falta de planejamento, seguimos vendo o bonde passar.


por:

João Nieckars

Advogado, economista e professor de direito empresarial

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